Religiosos: juízes usurpadores do lugar que é exclusivamente de Deus
Uma das passagens mais reveladoras dos evangelhos é aquela registrada nos onze primeiros versículos do capítulo oito do livro escrito por João, sobre a vida e ditos do Salvador. Nela, encontramos Jesus ensinando no templo de Jerusalém, nas primeiras horas da manhã de um novo dia. Neste momento é trazida à sua presença, arrastada por um grupo de escribas e fariseus (eles sempre andam juntos), uma mulher que fora apanhada em flagrante adultério. Ela não tem defesa, nem ninguém se interessa em defendê-la, mas não lhe faltam acusadores. Acusa-lhe a consciência, acusa-lhe o fato ainda no verdor de seu flagror e acusam-lhe os ‘da religião e da fé’.
Quando o assunto é submetido ao crivo do Mestre, este lhe é apresentado acompanhado de uma citação da Lei Mosaica (Deut. 22:22-24), na qual se diz que devem ser mortos por apedrejamento aqueles que neste pecado incorrerem. A tarefa que se espera de Cristo é simples, trata-se de algo que os juristas chamam de subsunção, uma espécie de silogismo lógico, em que se confronta o fato com a previsão legal e se conclui pela sentença a ser dada. O ardil dos religiosos contra Jesus (eu não me lembro de ver religiosos do lado de Jesus, sempre os encontro ‘no contra’), está no fato de que sentenciar alguém à morte seria um descompasso em relação a todo seu ensino, cujos fundamentos eram o amor, o perdão e a comunhão com o Pai.
A primeira reação de Jesus diante do tribunal eclesiástico que se armara diante dele é de desinteresse. É assim até hoje, todas as vezes que em uma igreja (como no templo naquela manhã) os irmãos se reúnem para julgar um outro que foi surpreendido em pecado, Jesus pede licença e vai cuidar da vida dele. Por incrível que pareça, eu não creio que ele abençoe nenhum tipo de juízo eclesiástico, cuja base está da distinção qualitativa ente os juízes e os réus, os primeiros são inocentes os outros, presumidamente, culpados; os primeiros representam Deus, os segundos recebem o castigo (pena) por seus erros, e o recebem por intermédio daqueles. Contudo, o ensino de Jesus é que todos os homens são devedores e incapazes de saldar seus débitos, é por isso que precisam do perdão incondicional de Deus. Não há que se falar aqui sobre quem deve mais ou quem deve menos, porque todos nós devemos mais do que podemos pagar, ou seja, devemos mais do que tudo que temos ou podemos vir a ter.
A parábola do ‘credor sem compaixão’ de Mateus 18:23-35, nos ensina que o desejo do Rei é nos perdoar, mas há em nós esta idéia de que temos que pagar (“sê paciente comigo e te pagarei tudo quanto te devo”, disse o devedor ao rei). Não podemos pagar, nem o Rei precisa receber, mas não suportamos a idéia da graça e sofremos por sermos assim perdoados, sem que se exija de nós nenhum sacrifício, isto porque a nossa natureza reclama por compensações, queremos ressarcir a Deus, mas como poderíamos? O pior é que além de termos tantas dificuldades em receber o perdão e a graça de Deus, somos incapazes de perceber que não temos condições de reclamar dos que nos devem e que a única exigência para que fluamos o pleno perdão é que alcancemos a consciência de que não temos dignidade pra cobrar os débitos dos que conosco convivem.
Voltando para o ‘patético tribunal’, Jesus é chamado para se assentar com os escribas e fariseus na ‘farra da adúltera’, a festa do apedrejamento da pecadora. É aí que, com magistral sabedoria, ele diz: quem for o primeiro vai ser o segundo. As palavras dele foram: “o que entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”, mas o significado era o seguinte: quem for o primeiro a apedrejar, abrindo o circo do castigo humano sobre os pecadores, imposto por iguais pecadores, será o segundo a ser apedrejado, porque ‘com a medida com que medires serás medido e com o rigor com que julgares o teu irmão serás julgado’. Foi neste momento que os religiosos viram que não tinham a menor autoridade para serem juízes, que tudo neles havia que os qualificava para serem réus de um desadoro semelhante ao que montaram.
Jesus não impediu o apedrejamento, apenas lhes fez saber que não havia neles competência para julgar, nem honra para jurisdizer. Fazê-lo seria, e é, usurpação dos direitos intransferíveis, inconferíveis e inalienáveis de Cristo. A nós só nos cabe sentar ao lado da adúltera e dizer em uníssono com Cristo: “eu não te condeno, vai e não peques mais”.
Sem juízo,
Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org
terça-feira, maio 29, 2007
segunda-feira, maio 14, 2007
Materna Idade: a universal capacidade de ser mãeEm seu mais recente CD, intitulado “Cê”, na canção “Homem”, Caetano Veloso diz: “Não tenho inveja da maternidade, nem da lactação”. Será? Não será verdade que todo homem guarda, ainda que dissimuladamente, dentro de si um desejo de ser terra sobre a qual a semente (semen em latim e spermatikon em grego) morra pra renascer planta? Não angustia ao gênero de Adão a esterilidade absoluta de seu ventre, essa completa incapacidade de lançar de si no mundo algo gestado em suas entranhas? Não me qualifico para responder a estas perguntas, posto que nada sei dos anseios alheios, mas reconheço em mim uma veneração quase que religiosa pela sublime potência de ser mãe. Isto sem ignorar que há indelével dor nesta graça.
Ninguém será mãe sem sofrer. E aqui a referência não é à maldição de Gênesis 3:16 (“em meio de dores darás à luz filhos”) – quem dera que o sofrimento materno se limitasse ao desconforto da parturiente – mas tenho em vista o lancinante flagelo de ver o desassossego daquele que até pouco tempo era como órgão em seu próprio corpo e agora chora e clama por um pouco de ar, por uma gota de leite (viço que não é tolo pra correr em masculino corpo), um colo que lhe acolha e aqueça. Que ser dependente é o humano ao nascer! Carece em tudo dos cuidados da mãe. Sai de seu corpo, sem, contudo, poder dele prescindir. Torna-se “alter” (outro), sem se tornar “auto” (independente). E lá vai a mulher... a seguir seu filho por onde quer que vá.
Quando Jesus contou a estória do Filho Pródigo, colocou um pai a deixar seu filho partir para terras distantes, uma vez que jamais uma mãe poderia caber no script do ser frio que divide os haveres; que aceita, sem contestação, a filial petição. Mas quando volta o arrependido, já não é um pai quem o espera, antes, é uma mãe. Porque esse negócio de correr, abraçar comovidamente, restituir honras sem exigir explicações, não corresponde ao pátrio poder, mas ao mátrio sofrer. Se me permitirem a grosseria os irmãos teólogos, é como se o pai que deixa partir fosse o Deus do Antigo Testamento e o que recebe e acolhe fosse Aquele revelado por Jesus e descrito no Novo Testamento. O primeiro lida com os direitos do descendente, o segundo com a graça do recorrente. Conquanto, entenda eu, que nem antes nem depois tivesse o que ‘haver’ (no sentido de receber) quem quer partir.
Mas tenho uma boa notícia para todos os leitores deste nosso humilde periódico: hoje todos podem ser mãe. Não esperem que lhes fale das mais recentes descobertas das ciências, nem de decisões judiciais que permitam a adoção às pessoas que antes se viam impedidas de fazê-lo. Quero lhes falar da ‘Materna Idade’, que vem a ser a universal capacidade de ter filhos. Acredito que todo ser humano chega, ou pode chegar, a uma época em sua vida em que desenvolve a virtude de ‘dar à luz’. Em outras palavras, lhe sobrevém uma maturidade a partir da qual não lhe é mais necessário que todas as coisas convirjam para seu umbigo, como se fosse ele o centro de todo o kósmos (isso é ser criança). Chega um tempo, ou deve chegar, em que alcançamos a grandeza de nos realizar alimentando outros, iluminando (dando luz) os circunstantes, multiplicando nossas vidas através da auto-doação.
Isso não tem a ver com ser homem ou mulher, nem com ser jovem ou adulto. Muito menos está condicionado a ser ou não cristão. A Materna Idade é a busca dos monges budistas e dos yogues indianos, do nirvana à extática experiência (vivência do êxtase). O que estou afirmando é que está impresso no psiquê humano um ciclo que pode e deve ser seguido, no qual nascemos crianças, nos tornamos homens e mulheres e depois viramos mães. As fases deste processo se expressam na decrescente necessidade da umbigalidade (neologismo já conhecido dos irmãos, no qual me refiro a esta compulsão a fazer de si mesmo o epicentro de tudo). É verdade, lamentavelmente, que muitos morrem velhos sem nunca deixar de ser criança.
Nunca ouvi frase mais patética do que esta: “quero ser uma eterna criança”. É como se alguém dissesse: quero depender sempre dos outros; quero ser cuidado e paparicado por toda vida; quero que haja sempre pessoas pra me limpar e limpar as “contribuições” que for deixando pelo mundo. Paciência! Tais quereres precisam ser trocados por outros, tais como: quero que de mim saia sempre vida e nunca morte, quero que do meu peito corra alimento generoso e claro; quero ser todo colo (do latim collum, lugar em que pulsa o coração)... quero ser mãe.
Com maternal carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliacao.org
Artigo do boletim semanal da Paróquia da Reconciliação do dia 13 de maio, dia das mães.
sexta-feira, abril 27, 2007
Procura-se uma Pessoa para AmarProcura-se uma pessoa para amar. Deve gostar do mar, uma vez que estamos em Boa Viagem. Deve sentir prazer em abraçar crianças, sobretudo aquelas que não são suas. Deve gostar de andar, de andar muito, de cidade pra cidade, de engenho pra engenho, e fazê-lo com um sorriso no olhar, para que as gentes do caminho não se sintam avaliadas com a sua chegada. Pelo contrário, que os seus passos tragam para o mais simples camponês e para o mais nobre senhor de terras a certeza de que somos todos iguais diante do Criador e de que há dentro de nós esta carência essencial, que é a necessidade de amar e corresponder em amor. Deve gostar de olhar passarinhos e deve querê-los livres, porque querer ver sempre o mesmo passarinho na sua varanda e para isso ali confiná-lo, é ter gosto pelo canto do desconsolo e não pelo louvor da saudação que só os livres sabem dar (“junto aos rios de Babilônia nos sentamos e choramos. Os que nos mantinham cativos nos pediam canções. Como cantaremos os louvores de Israel em terra estranha?” Salmo 137).
Não há necessidade de que seja bonita como as atrizes de Hollywood, nem tem que ter as formas bem definidas dos ‘candidatos a louco’ do Big Brother. Não estamos à procura deste tipo de beleza que passa com a pressa que tem a nuvem e o apogeu da flor. Isso não significa que tal pessoa tenha a faculdade de ser feia. Não há nada mais insuportável do que a feiúra. Feia é toda pessoa que não sabe sorrir ou que o faz de modo plástico e hipócrita. Feia é aquela que não tem paz no coração, cujos pensamentos e sentimentos são sempre um campo de batalha. Que olha pro irmão e não vê nele uma imperdível oportunidade de crescer em amor e compreensão. A feiúra não se disfarça pelo poder da maquiagem, já que quando não se manifesta na face, torna-se inolvidável no toque, particularmente naquele que se faz com as palavras. Desde criança aprendemos que não se deve dizer ‘nome-feio’, o que não nos ensinaram é que todo nome é feio na boca de quem o é.
É indispensável que esta pessoa queira amar todos os dias e não apenas nas noites de lua-cheia. Porque o verdadeiro amor não procura ocasião, não se mantém em potência, deixando de se manifestar por pura pretensão de discrição. O amor que se procura é torrente, é avalanche que se derrama sobre todos, indistintamente. É força vital, é ‘o todo total do tal’ (tal é a letra grega usada como cruz por São Francisco de Assis e que representa o amor simples, pelos simples e pela simplicidade). Não se espera que ame uma vez todos os dias, mas que ame todas as vezes, todos os dias. Que amar seja seu jeito de andar, seu sotaque peculiar, sua forma de partir o pão e de tomar vinho com o irmão. Esse é o amor da criação, quando tudo se fez através do sêmen da palavra, como se a voz tivesse o condão de evocar a existência, ‘ex nihilo’ (do nada), a vida que espera ser chamada. Se os cientistas tivessem lido Gênesis ‘descobririam’ que o caminho para a criação da vida não está na cadeia do DNA, mas nas estruturas das PCA (palavras cheias de amor). Nunca vimos nada realmente novo surgir na terra da Terra que não fosse criado por palavras cheias de amor, e faz muito tempo que é assim.
Contudo, mais do que tudo do que se disse até agora, é necessário que esta pessoa nos ame primeiro, nos ame antes de ser amada, nos ame há muito, mesmo antes de nossa chegada. Procura-se uma pessoa que desde toda a eternidade anda a procura de uma pessoa para amar. Alguém que não tem o capricho dos poetas, que só vêem razão no amor correspondido. Que coisa mais linda há do que o amor que espera, e que enquanto espera se dá, sem nada esperar daqueles a quem tudo dá? É preciso que essa pessoa nos ame primeiro, porque nunca saberíamos amar se amados não fôssemos antes. Porque o amor que se procura é mimetismo do amor divino, é encarnação da graça criadora, é imanência da força redentora e transcendência da fé geradora.
Mas, já que se procura, importa perguntar onde se procurar um amor assim. Recomendamos que se procure em manjedouras, em festas de casamento, na beira do mar e nas estradas empoeiradas dos andantes. Não esqueçam de vasculhar os tribunais, mas nestes, fitem o banco dos réus. É possível encontrá-lo em cadeias, com algemas nas mãos e sangue a tingir seu corpo. Não deixem de olhar para as cruzes erguidas nas estradas, as mesmas estradas nas quais muito se amou. Olhem com atenção os túmulos, mas os vazios. Se, malgrado todo esforço, não encontrarem a pessoa que se procura para amar, vão ao lugar que com certeza a encontrarão, procurem em seus corações, onde aguarda como guarda que não dorme enquanto não quiserem amar.
Com carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Eu quero ser feliz!Na minha vida pessoal e em minha atividade pastoral, ouvindo todos os dias dezenas de pessoas, conversando sobre suas dores e anseios, a frase que tem sido mais frequentemente repetida é esta: eu quero ser feliz! Parece-me que elas, por alguma razão, foram tomadas pela urgência de se fazerem felizes. De verem suas carências e expectativas atendidas o mais rápido possível. Sentem que a vida está passando em sua marcha irrefreável e não podem mais “perder tempo”.
E o que é “perder tempo”? É postergar (deixar pra depois) a satisfação, a realização de suas fantasias e desejos mais íntimos. Já passou tempo demais, urge quebrar os paradigmas, abrir as gavetas da imaginação à procura do desconhecido e exótico, que é, ao mesmo tempo, intensamente cativante e inebriante. Não importa que as pessoas sofram, que projetos longamente trabalhados venham a ruir em um passe de mágica (magia negra), que os valores mais caros tenham que ser esquecidos ou momentaneamente suspensos. É preciso ser feliz, e agora!
Ocorre que, frequentemente, estas pessoas continuam infelizes depois de fazerem o que “lhes deu na telha”. Colocaram a si mesmas e às figuras mais caras ao seu redor sob risco, ou mesmo, as magoaram profundamente e neste momento, com algum constrangimento, perguntam: é só isso? Foi por isso que eu deixei tudo? É nesta hora que elas chegam ao gabinete para conversarmos e orarmos juntos. Quando o “vidro foi quebrado”, quando a palavra foi dita, quando a cama foi desfeita, quando o copo chegou ao fim. Quanta frustração nos olhos e pesar na alma. “Mas é preciso ter coragem pra recomeçar...”.
Estou convencido que o maior mal deste novo século, não é, como ocorreu no século XX, a depressão e a ansiedade, mas a egolatria (culto ou adoração ao ego). Por uma série de razões que não poderei expor aqui, o ser humano do século XXI tornou-se egocêntrico e imediatista. Cada vez mais os seus sonhos foram se voltando para eles mesmos, para os seus corpos nos limites mais estreitos.
Os humanos são seres gregários, como formigas e abelhas, lhes é necessário viver em comunidade. Eles precisam de seres semelhantes a eles constantemente próximos para que alcancem (ou mantenham) sua identidade, uma sanidade física e emocional. Contudo, para que assim aconteça, mister se faz que eles se ajudem mutuamente, se toquem, se estimulem... se amem. Além disso, são seres morais e espirituais, carecem de valores capazes de dar sentido e direção à travessia em que consiste sua existência; de um relacionamento que transcenda sua umbigalidade (vida centrada no próprio umbigo).
Não é por outra razão que Jesus apontou o caminho para a vida eterna (que aqui deve ser entendida como uma vida cheia de razão, contentamento e paz), ensinando: “amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. E amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc. 12: 30 e 31). Queria, o grande Mestre, nos mostrar que a verdadeira felicidade só é alcançada se estendermos as fronteiras de nossos projetos de tal modo que se tornem capazes de albergar aqueles que estão ao nosso redor. A minha felicidade está única e exclusivamente na possibilidade de ver pessoas felizes perto de mim, em fazê-las felizes.
Nesta mesma esteira, São Paulo disse que o corpo da mulher não pertence a ela, e sim ao seu marido; e que o corpo do marido não pertence a ele, mas à sua esposa (1º Cor. 7:4). Logo, a responsabilidade pela satisfação e alegria de seus corpos teve a titularidade transferida. Casar é, portanto, um ato de irremediável entrega, doação. Confiar a si mesmo nas mãos de um outro ser exclusivamente por amor e em amando ser feliz. Lembra Chico dizendo: “se ao te conhecer fiz tantos desvarios, rompi com o mundo, queimei meus navios, me diz agora como é que eu posso ir?”.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Livres do Desânimo (ou de como estou velho, mas não estou acabado)Hoje, eu fiz 39 anos e pela primeira vez ouvi, com certa ironia, a tradicional canção “Parabéns pra você”. Fiquei pensando no porquê das pessoas estarem me felicitando, se o que meu aniversário indica é que eu estou me acabando, que a minha vida está chegando ao fim, que, de modo inexorável, a minha morte galopa lépida em minha direção? Senti bater em mim, quase de modo inédito, o sentimento tão conhecido dos poetas e cantores, esta angústia de me saber finito.
Lembrei-me de Vinícius, dizendo que, no final das contas, tudo se resume nisso: “...por cima uma laje, por baixo a escuridão. É fogo irmão, é fogo irmão!”. Recordei-me de que uma vez ele disse: “Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada ela (a morte) virá me abrir a porta como uma velha amante, sem saber que é a minha mais nova namorada”. E como esquecer de Gil, cantando que "se eu quiser falar com Deus, tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar, decidido, pela estrada que, ao findar, vai dar em nada, nada, nada ... do que eu pensava encontrar”. E para que os mais jovens não digam que só a rapaziada “das antigas” tinha tais pensamentos, cito meu querido Paulinho Moska, perguntando: “Então me diz qual é a graça de já saber o fim da estrada, quando se parte rumo ao nada?”.
A minha alma foi tomada por assalto e quase permiti que a tristeza a invadisse subitamente. Foi quando me ocorreu o texto de Paulo, registrado na 2ª carta aos Coríntios, no capítulo 4, versículos de 16 a 18, onde se lê: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas”.
Não há motivos para eu me deixar desanimar (palavra que vem do latim e significa perder o espírito, esvaziar-se do fôlego da vida), e o Apóstolo explica o porquê. Ainda que o meu “homem exterior”, o meu corpo e mesmo as posses que tenho se desfaçam com o tempo, há algo em mim que não envelhece nem caduca jamais, o meu “homem interior”, o meu espírito, o meu relacionamento com o Deus Vivo e Verdadeiro. Nele, eu posso mais hoje do que podia quando tinha 17 anos. Como disse Jesus, nem a traça, nem a ferrugem, nem o ladrão (tudo isso que é o tempo) podem fazer com que eu perca o meu tesouro que está nos céus.
Lá, vale a pena investir, até porque, assim fazendo, podemos andar seguros na Terra. Não como o arrogante milionário, que coloca sua confiança naquilo que um ato governamental ou uma repentina variação de mercado podem destruir de uma hora pra outra, mas vestidos da paz, filha da certeza de sermos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo das riquezas do Pai. Quem sabe disso rouba da morte o seu aguilhão (1º Cor. 15:55), livra-se do pavor da contínua decomposição dos seres e pacifica a alma diante das incertezas do futuro.
Uma das idéias que mais me impressiona na passagem de 2ª Coríntios é aquilo que Paulo chama de “leve e momentânea tribulação”. O que seria isso? A resposta está alguns capítulos depois, quando ele descreve as coisas que vinha passando por causa do Evangelho: suas prisões, seus naufrágios, os açoites dos quais foi vítima, as traições que sofreu, a fome e a nudez. Isso era a sua “leve e momentânea tribulação”. Como é possível? Deixem que ele próprio responda: tudo isso é pequeno e irrelevante quando contrastado com a eterna glória que já começa a ser derramada sobre nós, a ponto de já sentirmos o seu peso. Imagino como os tradutores da Bíblia devem se encontrar em maus lençóis para traduzirem a expressão grega utilizada pelo autor, hiperbolê eis hipérbolê, ou seja, um exagero que leva a outro exagero, algo sem qualquer comparação. A nossa dor é tão pouca, quando comparada a um prêmio tão grande; os nossos dissabores são tão pequenos, quando os pomos em frente a tudo quanto Deus nos tem dado e ainda nos dará!
Por fim, o nosso amigo nos ensina que se quisermos ser, de fato, felizes, precisamos aprender a ver o invisível. Parece que Antoine de Saint-Exupéry, ao escrever o Pequeno Príncipe, tinha em mente este texto de Paulo, e disse que “o essencial é invisível aos olhos”, mas esqueceu de dizer que é preciso que tenhamos olhos para ver o essencial, ver o invisível. Há somente um olhar capaz disso, o olhar da fé. Aquele que fez com que Moisés, “pela fé, abandonasse o Egito, não ficando amedrontado com a cólera do rei; antes, permanecesse firme como quem vê Aquele que é invisível” (Heb. 11:27).
Não quero ser eternamente jovem, quero ser eternamente feliz!
Com carinho,
Martorelli Dantas
terça-feira, janeiro 09, 2007
Vivendo Acima da MediocridadeEstamos vivendo os primeiros dias de 2007, isto por si só é um fato extraordinário. Deus nos deu não apenas um novo dia, mas um ano novo para vivermos. De algum modo chegamos até aqui. Quando era criança costumava pensar em como seriam o mundo e a minha vida no longínquo e mítico ano 2000. Este ano chegou e a vida neste tempo é de fato extraordinária. Só nos filmes de ficção científica poderíamos pensar em coisas como telefone celular, computadores, cirurgias realizadas por videolaparoscopia, ou seja, sem que haja necessidade de produzir uma grande incisão no corpo do paciente. E o que falar do avanço das cirurgias estéticas, que permitem que as pessoas, que tenham recursos para custeá-las, possam ter praticamente a aparência que quiserem ter?
Dos dias de minha infância até hoje, muita coisa mudou. Lula, o líder sindical da CUT, é presidente da república e o PT, o partido dos estudantes revolucionários, está no poder. Somente nos sonhos mais alucinados alguém que viveu o início da década de 80 poderia imaginar isso. Mas, paradoxalmente, muitas realidades continuam as mesmas. Os seres humanos continuam agredindo o meio-ambiente; ainda mentem para encobrir seus erros e fraquezas; suas relações interpessoais ainda são marcadas pelo egoísmo e pela superficialidade e continuam levando vidas medíocres. Se me perguntassem qual a maior enfermidade que destrói a nossa geração, eu não diria que é o câncer, a AIDS ou enfermidades ligadas ao sistema cardiovascular. Creio que o maior mal é a assunção da mediocridade com algo normal e perfeitamente aceitável. Onde está o desejo de fazer de nossas vidas algo realmente maravilhoso? Onde está “a renúncia à poesia não vivida”?
A mediocridade é um fenômeno tão poderoso que é mesmo difícil discernir o quanto as nossas vidas foram dominadas por ela. Esta é a razão porque lhes proponho um esforço de diagnóstico para que busquemos uma compreensão de sua presença na vida que estamos levando. Em primeiro lugar, vamos ver se passamos a maior parte do tempo vivendo ou fantasiando. Se estamos tentando fugir de nossa realidade através de ilusões auto-produzidas, auto-induzidas, ou se de fato estamos tão interessados no que temos experimentado no dia-a-dia que não temos interesse nisso. É impressionante como as vidas se tornaram desinteressantes e as pessoas partiram para os diferentes tipos de virtualidade. E o que há de sedutor nestas vidas de mentira? A possibilidade de não ser você mesmo, e isto é tudo que muitas pessoas desejam. Não ter os filhos que têm, não estar casado(a) com quem está, não passar a maior parte do dia fazendo o que faz... assim constroem uma “segunda vida” em lugar de transformar a que têm.
Um segundo passo para averiguarmos se a mediocridade se instalou ou não em nós é o nível de emoção/vibração de nossas atividades, quer sejam profissionais, amorosas ou ministeriais. Parece que a maioria das pessoas acredita de fato que o tédio é o caminho inexorável da existência humana, que mais cedo ou mais tarde a monotonia vai nos fazer sucumbir. O pior é que muitos, ansiando as emoções que não têm, caem no erro de viver uma vida dupla, de levar uma “vida escondida”, e a emoção está em não permitir que ela seja revelada. Tem coisa mais medíocre do que não ter coragem de assumir suas escolhas, que não expor suas idéias e sentimentos? Creio que temos a oportunidade de viver uma vida extraordinariamente emocionante baseada na fé, na capacidade de aceitar desafios não fundamentados meramente na racionalidade, mas na direção dada por Deus e provada pela oração e pelo jejum. Seguir o sopro do Vento de Deus.
Por fim, temos o mais nosso de todos os sintomas de mediocridade. O cinismo com que tratamos o modelo de vida proposto por Jesus. Em passagens como o Sermão da Montanha ele nos ensinou sobre como devemos lidar com os nossos inimigos, como reprimir nossos desejos pecaminosos e como ordenar as nossas prioridades de tal modo que os valores do Reino de Deus sejam o maior de todos os tesouros em nossas vidas. Contudo, a quase totalidade dos cristãos que eu conheço (inclusive eu) faz questão de ignorar tudo isso e se pautam por padrões de conduta que vigoram na sociedade ao redor de nós. Continuamos chamando Jesus de Senhor e Mestre, mas seguimos os passos dos seres “bem-sucedidos” que nos impressionam mais pelo que têm do que pelo que são.
Este ano é a nossa oportunidade para deixarmos de ser medíocres. Vamos ver se começa por mim.
Com carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliacao.org
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Uma Oração de Saudade e Pedido de Força [*]
Jesus nos ensinou que é melhor a casa de luto do que a casa de festa, pois na casa de luto se discerne os corações dos homens. Hoje os nossos corações são saudade e melancolia. A partida não de um ente querido, mas do mais querido de todos os entes é pura consternação, por esta razão importa buscar a Tua graça consoladora, oh amantíssimo Deus. Clamamos que derrames sobre nós do teu Espírito Santo para que possamos não apenas suportar a dor desta separação, mas também para fortalecer dentro de nós a convicção de sua temporalidade, e de que em breve a poderosa mão da Providência nos reaproximará em um venturoso encontro de alegria e paz.
Agora, quando celebramos a memória de nossa mãe, quando elevamos a Ti nossas orações e preces em seu favor e em louvor por sua indelével memória, pedimos mais por nós do que por ela. Isto porque sabemos que agora ela é toda consolação e conforto, enquanto nós jazemos na Terra sem o lugar em que nos sentíamos mais aconchegados e protegidos, o seu colo de amor. Viver é como navegar, é preciso, contudo, que nunca nos esqueçamos das lições aprendidas, dos exemplos vistos, da caridade revelada em gestos de entrega e compromisso. Que esta nossa tristeza seja ungida com as gotas do óleo da esperança e que em nossa pequenez e fraqueza se manifestem mais amplamente o Teu poder e fidelidade.
O evangelista João nos conta que quando o Salvador viu o cenário de dor que cercava o túmulo de seu amigo Lázaro não pode conter as lágrimas e chorou. Pranteou não pelo que havia partido, mas por todos aqueles que estavam em seu entorno e que não compreendiam a dinâmica da morte e da vida. Chorou por Marta e Maria, por seus parentes e afins, que se sentiam desguarnecidos pelo afastamento do de cujos. Chorai também por nós neste dia, oh Senhor! E ensina-nos as lições da paciência e da fé para que aguardemos a tua chegada e a concretização de Tuas inolvidáveis promessas. Saber nunca deu conta do viver, por isso faze-nos crer e aguardar em tranqüila expectativa a ocorrência de nosso eterno e amoroso abraço. Senhor tem piedade de nós! Amém!
[*] Escrito para meu amigo Fernando Viana por ocasião da Missa de Sétimo Dia de sua querida mãe.
Jesus nos ensinou que é melhor a casa de luto do que a casa de festa, pois na casa de luto se discerne os corações dos homens. Hoje os nossos corações são saudade e melancolia. A partida não de um ente querido, mas do mais querido de todos os entes é pura consternação, por esta razão importa buscar a Tua graça consoladora, oh amantíssimo Deus. Clamamos que derrames sobre nós do teu Espírito Santo para que possamos não apenas suportar a dor desta separação, mas também para fortalecer dentro de nós a convicção de sua temporalidade, e de que em breve a poderosa mão da Providência nos reaproximará em um venturoso encontro de alegria e paz.
Agora, quando celebramos a memória de nossa mãe, quando elevamos a Ti nossas orações e preces em seu favor e em louvor por sua indelével memória, pedimos mais por nós do que por ela. Isto porque sabemos que agora ela é toda consolação e conforto, enquanto nós jazemos na Terra sem o lugar em que nos sentíamos mais aconchegados e protegidos, o seu colo de amor. Viver é como navegar, é preciso, contudo, que nunca nos esqueçamos das lições aprendidas, dos exemplos vistos, da caridade revelada em gestos de entrega e compromisso. Que esta nossa tristeza seja ungida com as gotas do óleo da esperança e que em nossa pequenez e fraqueza se manifestem mais amplamente o Teu poder e fidelidade.
O evangelista João nos conta que quando o Salvador viu o cenário de dor que cercava o túmulo de seu amigo Lázaro não pode conter as lágrimas e chorou. Pranteou não pelo que havia partido, mas por todos aqueles que estavam em seu entorno e que não compreendiam a dinâmica da morte e da vida. Chorou por Marta e Maria, por seus parentes e afins, que se sentiam desguarnecidos pelo afastamento do de cujos. Chorai também por nós neste dia, oh Senhor! E ensina-nos as lições da paciência e da fé para que aguardemos a tua chegada e a concretização de Tuas inolvidáveis promessas. Saber nunca deu conta do viver, por isso faze-nos crer e aguardar em tranqüila expectativa a ocorrência de nosso eterno e amoroso abraço. Senhor tem piedade de nós! Amém!
[*] Escrito para meu amigo Fernando Viana por ocasião da Missa de Sétimo Dia de sua querida mãe.
A Hora e o Lugar da ViradaSempre que o final do ano se aproxima surge na maioria de nós este sentimento de que algo novo vai começar, como se a vida estivesse nos dando “mais uma chance” de sermos felizes. Nos pomos a tecer sonhos sobre como será a nossa vida no ano novo, que mudanças radicais vamos realizar. Pensamos em tudo aquilo que vamos, finalmente, fazer e que definirá novas diretrizes para o curso de nossa história. É um clima de otimismo e de esperança realmente contagiante.
Infelizmente toda esta positividade, via de regra, não chega sequer a superar o carnaval. Mal passa a festa de Momo e já nos flagramos decepcionados com o curso que tomou as nossas vidas. Mais parece um carma, um castigo, uma sina; como se estivéssemos condenados pelo destino a cometer os mesmo erros, termos os mesmos sentimentos e colhermos as mesmas conseqüências. Será que nada, senão o próximo ano, pode conter estes acontecimentos?
Em primeiro lugar, precisamos entender que todos os dias começamos um ano novo. A distância entre o dia 18 de fevereiro e o próximo dia 18 de fevereiro é de um ano, logo no dia 19 sempre começa um ano novo. É assim em todos os dias do ano. Sempre podemos recomeçar, mas o desafio não é “começar de novo”, é “começar de modo novo”. Em segundo lugar, para haver de fato novidades em nossas vidas é preciso que haja uma agenda nova de pensamentos, sentimentos, falas, atos e hábitos. E tais mudanças devem ser orientadas por valores mais elevados que aqueles que temos cultivado até hoje.
Pouco importa se o ano é novo se a vida é velha. Se os nossos valores, a nossa postura, se a forma como vemos as pessoas e as circunstâncias nas quais nos encontramos é a mesma, não temos o direito de esperar resultados diferentes dos que obtivemos no passado. A primeira e a mais importante libertação é aquela que acontece em nosso interior. A primeira e a mais importante transformação é aquela que ocorre dentro de nós.
Por isso Jesus não lutou contra Roma, mas contra o Diabo; por isso ele não se digladiou contra César, mas contra o espírito do materialismo e do fundamentalismo de seus dias; por isso ele se fez amigo de pecadores e inimigo de religiosos, e convidou a ambos para o arrependimento e à conversão. Cristo abalou o mundo não com generais e exércitos, mas através da força de pescadores e camponeses. No Nazareno os fracos são fortes, a força dos homens nada pode, e hoje é sempre o dia do milagre.
Quero convidar você a fazer do dia 31 de dezembro, o momento da virada na sua vida. Não porque é ano novo, mas porque você precisa de uma vida nova. Para isso aconselho que façamos duas coisas: apresentemos a Deus em oração os nossos desejos de novos resultados em nossas vidas e busquemos a atitude que nos levará a tais objetivos. Um dia ouvi de um amigo uma frase que jamais poderei esquecer: reflita sobre os hábitos que podem lhe levar às suas metas e torne-se escravo deles. Vamos fazer isso. Feliz vida nova.
Com carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Natal é o Mistério da Reconciliação
Quando você pensa no Natal que imagens vêm à sua mente? Papai Noel, rena, trenó, árvore, neve, lâmpadas multicoloridas? Claro que não! Você é um cristão consciente e no final de ano você pensa no presépio, na estrela de Belém, nos magos, nos pastores que estavam no campo e foram convidados pelos anjos para conhecerem o “recém nascido reio dos judeus”. Mas será que Natal é isso mesmo?
Creio que as imagens tradicionais não fazem justiça à grandiosa mensagem do Natal. Tudo quando nos dizem os Evangelhos é verdadeiro e constroem o cenário em que se deu o mistério da encarnação, mas o que vem a ser isso? A encarnação é a essência do Natal. É o inexplicável fato de que Deus amou tão intensamente a sua criação que para resgatá-la, fez-se homem e veio habitar conosco, tomou sobre si as nossas dores, limitações, angústias. Tudo quanto é típico da humanidade se tornou parte de sua natureza.
A grande maioria das religiões orientais falam de um caminho para que o homem se aproxime de Deus, elevando “a coroa da criação” aos píncaros dos montes eternos, quem sabe através das orações, meditações, atos de misericórdia ou contemplação. Mas o Novo Testamento nos trouxe uma direção diferente, Deus é quem desce à condição humana para mostrar-lhe como é possível existir na presença do Senhor e em comunhão com o semelhante sendo homem. Tudo quanto Jesus disse e fez em seu ministério terreno foi para nos revelar como pode ser sublime viver em comunidade. Deus é comunidade e habita na comunidade dos santos que invocam o seu nome.
Jesus veio ao mundo para anunciar a sublime verdade de que o Pai não preserva para sempre a sua ira, que o amor pode mais do que o ódio, que o pecado não é maior que a graça e que Criador e criatura podem ser um só. Gosto de pensar como um dia me sugeriu o pregador presbiteriano Tim Keller, que Jesus contou a parábola do Filho Pródigo, na qual há um “irmão mais velho”, que fica irritado com o seu pai porque este recebe de volta com festa o filho mais moço que havia saído de casa e desperdiçado levianamente todos os seus bens, para nos fazer saber que ele, Cristo, é um outro tipo de “irmão mais velho”, um que vai à procura de seu irmão, que o busca nos guetos e vielas até encontrá-lo e quando o encontra, o abraça, cuida dele e lhe diz: “vamos voltar pra casa, Papai não com raiva de você, ele vai lhe perdoar e receber”. Assim fazendo a parábola se transforma em um contraste entre o próprio Jesus e os religiosos de seus dias, que eram os ouvintes originais da estória.
A mensagem do Natal é o anseio divino pela reconciliação do homem consigo. Toda revelação evangélica é uma “outra parábola do Filho Pródigo”, na qual o reencontro acontece em face de uma busca, em que o Pai não fica na expectativa do regresso do filho, mas toma a iniciativa de envia seu Primogênito para empreender a maior busca que a História já conheceu para resgatar não um, mas todos os filhos que se desgarraram do Pai e que vivem distantes de sua casa. O desejo eterno de Deus é o abraço e a festa, que um dia o Rev. Alexandre Ximenes chamou de o “baile dos arrependidos”, em que qualquer um pode entrar, desde que tenha consciência de que não merece nada do que está ali acontecendo e que tudo é por graça e amor do Pai.
Quero pedir ao Senhor que você tenha de fato um Feliz Natal, mas o que seria mesmo isso, um feliz Natal? Melhor que ter um fim de semana feliz é descobrir neste final de semana o caminho para ser feliz, e este caminho é crer no Natal. Crer nele como a revelação de que Deus se interessa pro nós, que as nossas vidas e dramas não passam desapercebidos do Pai, antes, foi justamente para que nós fôssemos felizes que Ele suportou o supremo sacrifício, fez vir “o seu Filho unigênito para que todo aquele que nEle crer, não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo. 3:16). Jesus continua a nossa procura para entregar o mais belo e antigo dos cartões de Natal, nele está escrito: “Filho, eu sempre te amei, nada do que você tenha feito, dito ou pensado pode mudar isso, quero que vivamos sempre em perfeita harmonia e comunhão. Você pode contar sempre comigo. Assinado: Painho”.
Deus te faça feliz,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliação.org
Quando você pensa no Natal que imagens vêm à sua mente? Papai Noel, rena, trenó, árvore, neve, lâmpadas multicoloridas? Claro que não! Você é um cristão consciente e no final de ano você pensa no presépio, na estrela de Belém, nos magos, nos pastores que estavam no campo e foram convidados pelos anjos para conhecerem o “recém nascido reio dos judeus”. Mas será que Natal é isso mesmo?
Creio que as imagens tradicionais não fazem justiça à grandiosa mensagem do Natal. Tudo quando nos dizem os Evangelhos é verdadeiro e constroem o cenário em que se deu o mistério da encarnação, mas o que vem a ser isso? A encarnação é a essência do Natal. É o inexplicável fato de que Deus amou tão intensamente a sua criação que para resgatá-la, fez-se homem e veio habitar conosco, tomou sobre si as nossas dores, limitações, angústias. Tudo quanto é típico da humanidade se tornou parte de sua natureza.
A grande maioria das religiões orientais falam de um caminho para que o homem se aproxime de Deus, elevando “a coroa da criação” aos píncaros dos montes eternos, quem sabe através das orações, meditações, atos de misericórdia ou contemplação. Mas o Novo Testamento nos trouxe uma direção diferente, Deus é quem desce à condição humana para mostrar-lhe como é possível existir na presença do Senhor e em comunhão com o semelhante sendo homem. Tudo quanto Jesus disse e fez em seu ministério terreno foi para nos revelar como pode ser sublime viver em comunidade. Deus é comunidade e habita na comunidade dos santos que invocam o seu nome.
Jesus veio ao mundo para anunciar a sublime verdade de que o Pai não preserva para sempre a sua ira, que o amor pode mais do que o ódio, que o pecado não é maior que a graça e que Criador e criatura podem ser um só. Gosto de pensar como um dia me sugeriu o pregador presbiteriano Tim Keller, que Jesus contou a parábola do Filho Pródigo, na qual há um “irmão mais velho”, que fica irritado com o seu pai porque este recebe de volta com festa o filho mais moço que havia saído de casa e desperdiçado levianamente todos os seus bens, para nos fazer saber que ele, Cristo, é um outro tipo de “irmão mais velho”, um que vai à procura de seu irmão, que o busca nos guetos e vielas até encontrá-lo e quando o encontra, o abraça, cuida dele e lhe diz: “vamos voltar pra casa, Papai não com raiva de você, ele vai lhe perdoar e receber”. Assim fazendo a parábola se transforma em um contraste entre o próprio Jesus e os religiosos de seus dias, que eram os ouvintes originais da estória.
A mensagem do Natal é o anseio divino pela reconciliação do homem consigo. Toda revelação evangélica é uma “outra parábola do Filho Pródigo”, na qual o reencontro acontece em face de uma busca, em que o Pai não fica na expectativa do regresso do filho, mas toma a iniciativa de envia seu Primogênito para empreender a maior busca que a História já conheceu para resgatar não um, mas todos os filhos que se desgarraram do Pai e que vivem distantes de sua casa. O desejo eterno de Deus é o abraço e a festa, que um dia o Rev. Alexandre Ximenes chamou de o “baile dos arrependidos”, em que qualquer um pode entrar, desde que tenha consciência de que não merece nada do que está ali acontecendo e que tudo é por graça e amor do Pai.
Quero pedir ao Senhor que você tenha de fato um Feliz Natal, mas o que seria mesmo isso, um feliz Natal? Melhor que ter um fim de semana feliz é descobrir neste final de semana o caminho para ser feliz, e este caminho é crer no Natal. Crer nele como a revelação de que Deus se interessa pro nós, que as nossas vidas e dramas não passam desapercebidos do Pai, antes, foi justamente para que nós fôssemos felizes que Ele suportou o supremo sacrifício, fez vir “o seu Filho unigênito para que todo aquele que nEle crer, não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo. 3:16). Jesus continua a nossa procura para entregar o mais belo e antigo dos cartões de Natal, nele está escrito: “Filho, eu sempre te amei, nada do que você tenha feito, dito ou pensado pode mudar isso, quero que vivamos sempre em perfeita harmonia e comunhão. Você pode contar sempre comigo. Assinado: Painho”.
Deus te faça feliz,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliação.org
sexta-feira, dezembro 01, 2006
O Começo do Fim da Igreja Evangélica Brasileira
O título deste artigo pode parecer dramático ou sensacionalista, mas segue na esteira do que muitos importantes líderes cristãos têm apontado como sendo uma posição pessoal e/ou comunitária, uma espécie de “fim para mim”. Refiro-me a figuras como o pastor de origem batista Ed René Kivitz, que em seu recente livro “Outra Espiritualidade”, afirma estar à procura de um outro modo de expressar a sua fé em Deus e a sua fidelidade a Cristo, que não àquela que ganhou a alcunha de evangélica. Ele diz não mais se ver naquilo que pode hoje ser identificado por este adjetivo.
Antes dele Ricardo Gondin, líder internacionalmente conhecido da Igreja Assembléia de Deus, escreveu em carta aberta amplamente veiculada na Internet, seguindo o mesmo diapasão, que não é mais evangélico. O texto de Gondin me soou mais acre que de Kivitz, nele o pastor que começou o seu ministério na capital cearense, mas que hoje está radicado em São Paulo, diz que a igreja evangélica no Brasil transformou-se numa fábrica de medos e neuroses, marcada por um forte legalismo e com seu corolário que é a burocracia forense, de tribunais eclesiásticos e assembléias deliberativas, onde muito se discute, machuca, humilha e constrange, mas pouco se delibera.
Um outro cristão de renome que parece ter declaradamente deixado as fileiras do evangelicalismos tradicional foi Caio Fábio. Tendo sido um dos maiores evangelistas da história de nosso país com as cruzadas de evangelização que literalmente cruzaram o país nas décadas de 80 e 90 e o principal articulador da Aliança Evangélica Brasileira (AEVB), Caio guarda hoje muitas reservas em relação à maioria das iniciativas eclesiásticas tidas como evangélicas que têm notoriedade na mídia televisiva e radiofônica. Suas acusações carregadas de uma terminologia psicanalítica apontam um grande seguimento das igrejas evangélicas como estando a torturar emocional e espiritualmente os fiéis, quer seja instalando neles “culpas fabricadas em laboratório”, quer pelas promessas de saúde e prosperidade à “preços módicos”.
Por que será que estas e outras tantas figuras de peso estão se “desassociando” do movimento evangélico? Creio que poderíamos apontar pelo menos duas razões: em primeiro lugar o conceito de “evangélico” se esgarçou tanto que já não sustenta nada. Em outras palavras, cabem tantas formas diferentes de crenças e cultos debaixo desta rubrica que ela já não designa claramente nada. A Igreja Universal do Reino de Deus se diz evangélica e a Igreja de Confissão Luterana faz a mesma coisa, mas não há sequer um aspecto em que estas duas comunidades se toquem. A segunda está muito mais próxima da Igreja Católica Romana, ao tempo que a primeira está mais próxima do Espiritismo Kardecista, dois grupos que estão fora do mundo dito evangélico. Imaginem a confusão disso tudo...
Em segundo lugar, durante o último quartel da década de 90 a igreja evangélica passou por uma fase de “profissionalização marketeira” de seu clero e de suas instituições, ou seja, as comunidades locais começaram a ser vistas como “um negócio”, “um empreendimento” e os números começaram a se tornar mais importantes do que o conteúdo da pregação e do ensino. Na verdade, a pregação e o ensino começaram a ser vistos como meios para alcançar os cobiçados números (freqüentadores e receita). Em face disso os discursos começaram a ser cada vez mais sobre a vida aqui e agora, ao passo que o céu foi sendo deixado para um segundo plano. Muitos pastores se converteram em gurus de auto-ajuda, e as liturgias foram dirigidas para promover motivação mais do que adoração. O que funciona em muitos aspectos, mas representa uma ruptura com um cristianismo histórico que os referidos líderes dizem estar vinculados.
O fato é que mais do que nunca nós precisamos relembrar as palavras de Humerto Rohden, que nos ensinou que mais importante do que ser cristão (ou evangélico) é ser crístico. Mais do que crer no que Jesus ensinou, urge viver como ele viveu. O Brasil é uma terra de liberdade religiosa e de muito sincretismo, devemos ter a liberdade para dizer que nós não fazemos parte deste ou daquele movimento, sobretudo quando a agenda dos interesses destes se afastou de nosso ideal de espiritualidade.
Com carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliacao.org
O título deste artigo pode parecer dramático ou sensacionalista, mas segue na esteira do que muitos importantes líderes cristãos têm apontado como sendo uma posição pessoal e/ou comunitária, uma espécie de “fim para mim”. Refiro-me a figuras como o pastor de origem batista Ed René Kivitz, que em seu recente livro “Outra Espiritualidade”, afirma estar à procura de um outro modo de expressar a sua fé em Deus e a sua fidelidade a Cristo, que não àquela que ganhou a alcunha de evangélica. Ele diz não mais se ver naquilo que pode hoje ser identificado por este adjetivo.
Antes dele Ricardo Gondin, líder internacionalmente conhecido da Igreja Assembléia de Deus, escreveu em carta aberta amplamente veiculada na Internet, seguindo o mesmo diapasão, que não é mais evangélico. O texto de Gondin me soou mais acre que de Kivitz, nele o pastor que começou o seu ministério na capital cearense, mas que hoje está radicado em São Paulo, diz que a igreja evangélica no Brasil transformou-se numa fábrica de medos e neuroses, marcada por um forte legalismo e com seu corolário que é a burocracia forense, de tribunais eclesiásticos e assembléias deliberativas, onde muito se discute, machuca, humilha e constrange, mas pouco se delibera.
Um outro cristão de renome que parece ter declaradamente deixado as fileiras do evangelicalismos tradicional foi Caio Fábio. Tendo sido um dos maiores evangelistas da história de nosso país com as cruzadas de evangelização que literalmente cruzaram o país nas décadas de 80 e 90 e o principal articulador da Aliança Evangélica Brasileira (AEVB), Caio guarda hoje muitas reservas em relação à maioria das iniciativas eclesiásticas tidas como evangélicas que têm notoriedade na mídia televisiva e radiofônica. Suas acusações carregadas de uma terminologia psicanalítica apontam um grande seguimento das igrejas evangélicas como estando a torturar emocional e espiritualmente os fiéis, quer seja instalando neles “culpas fabricadas em laboratório”, quer pelas promessas de saúde e prosperidade à “preços módicos”.
Por que será que estas e outras tantas figuras de peso estão se “desassociando” do movimento evangélico? Creio que poderíamos apontar pelo menos duas razões: em primeiro lugar o conceito de “evangélico” se esgarçou tanto que já não sustenta nada. Em outras palavras, cabem tantas formas diferentes de crenças e cultos debaixo desta rubrica que ela já não designa claramente nada. A Igreja Universal do Reino de Deus se diz evangélica e a Igreja de Confissão Luterana faz a mesma coisa, mas não há sequer um aspecto em que estas duas comunidades se toquem. A segunda está muito mais próxima da Igreja Católica Romana, ao tempo que a primeira está mais próxima do Espiritismo Kardecista, dois grupos que estão fora do mundo dito evangélico. Imaginem a confusão disso tudo...
Em segundo lugar, durante o último quartel da década de 90 a igreja evangélica passou por uma fase de “profissionalização marketeira” de seu clero e de suas instituições, ou seja, as comunidades locais começaram a ser vistas como “um negócio”, “um empreendimento” e os números começaram a se tornar mais importantes do que o conteúdo da pregação e do ensino. Na verdade, a pregação e o ensino começaram a ser vistos como meios para alcançar os cobiçados números (freqüentadores e receita). Em face disso os discursos começaram a ser cada vez mais sobre a vida aqui e agora, ao passo que o céu foi sendo deixado para um segundo plano. Muitos pastores se converteram em gurus de auto-ajuda, e as liturgias foram dirigidas para promover motivação mais do que adoração. O que funciona em muitos aspectos, mas representa uma ruptura com um cristianismo histórico que os referidos líderes dizem estar vinculados.
O fato é que mais do que nunca nós precisamos relembrar as palavras de Humerto Rohden, que nos ensinou que mais importante do que ser cristão (ou evangélico) é ser crístico. Mais do que crer no que Jesus ensinou, urge viver como ele viveu. O Brasil é uma terra de liberdade religiosa e de muito sincretismo, devemos ter a liberdade para dizer que nós não fazemos parte deste ou daquele movimento, sobretudo quando a agenda dos interesses destes se afastou de nosso ideal de espiritualidade.
Com carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliacao.org
quinta-feira, novembro 16, 2006
15 anos de Ministério Pastoral
No dia 09 de março de 1991, no templo da Igreja Presbiteriana de Catende, durante culto festivo, presidido pelo Rev. Eliseu Siqueira, então presidente do Presbitério Sul de Pernambuco, fui ordenado ministro do Evangelho. Eu tinha acabado de fazer 23 anos e havia sido designado pelo concílio para pastorear a comunidade onde estava recebendo a sagrada ordem de presbítero. Havia no templo superlotado representantes de diferentes igrejas onde eu já havia trabalhado como seminarista: Congregação da Vila Cardeal Silva e Igreja Presbiteriana de San Martin (1987 e 1988); Igreja Presbiteriana de Barreiros (1989) e a Igreja Presbiteriana da Madalena (1990) fretou um ônibus para que os irmãos mais achegados pudessem estar presentes.
Eu e Claudicéia havíamos nos casado no dia 02 de dezembro de 1989 e não tínhamos filhos. Ela fez grandes renúncias pessoais e profissionais para me acompanhar no ministério. Permaneci em Catende por dois anos, foram anos extraordinários. O Senhor enviou uma unção muito especial sobre a minha vida. Naqueles dois anos a nossa comunidade foi a que mais cresceu em todo o Sínodo Central de Pernambuco, o que acabou trazendo alguma notoriedade para o que estava acontecendo ali. Foram surgindo convites para pastorear outras igrejas, e no final de 1992 eu aceitei concorrer ao pastorado da Igreja Presbiteriana de Afogados, na capital pernambucana. Foi a decisão mais difícil da minha vida, ainda que não tenha sido a mais importante. Foram três dias de jejum e oração para que o Senhor me revelasse a sua vontade. A tristeza em Catende era tão grande que não parecia que eu deixaria o pastorado, mas sim que eu (ou a igreja) morreria.
No início de 1993, em cerimônia presidida pelo Rev. Henrique de Lima Guedes, então presidente do Presbitério do Recife, tomei posse como pastor da comunidade que, anos depois, passaria a se chamar Igreja Presbiteriana do Largo da Paz (era muito complicado explicar pelo Brasil, em minhas centenas de viagens, porque a igreja se chamava “de Afogados”). O meu período no Largo da Paz, dez anos, foi contraditório. Alcancei reconhecimento nacional como um dos jovens ministros de destaque, mas a igreja não cresceu nem sanou os seus mais pungentes problemas. Olhando para trás, passados alguns anos, percebo que me dividi demais, aceitando convites e eleições para cargos eclesiásticos. Assumi a função de professor em diferentes seminários no Recife, comecei a lecionar em mais de uma faculdade. Não sobrava tempo para pastorear. Que o Senhor me ajude a não cometer este mesmo erro novamente!
A minha atuação como político eclesiástico (várias vezes eleito presidente do Presbitério do Recife e duas vezes presidente do Sínodo Central de Pernambuco) e como professor de Teologia caminhavam de mãos dadas. Havia uma espécie de mútua sustentação, mas em ambas as esferas enfrentava fortíssimas resistências, vindas das camadas mais conservadoras da igreja, que no caso da IPB é predominante. Vi com muita tristeza o fundamentalismo crescer novamente nos arraiais presbiterianos. Resisti à reinstalação da miopia puritana, farisaica e beligerante, na liderança da igreja de meus bisavós, mas não logrei êxito. Hoje, digo isto como um lamento, a Igreja Presbiteriana do Brasil, enquanto denominação e estrutura eclesiástica nacional está longe do que já foi no passado, conquanto existam inúmeras comunidades locais e pastores vivos e vibrantes, a denominação é marcada por uma burocracia jurássica.
Os meus olhos começaram a se abrir para o fato de que aquilo que eu julgava ser o caminho da redenção da IPB (a articulação política denominacional) era a sua principal enfermidade. Tudo ganhou contornos indeléveis no processo de eleição ao pastorado da Igreja Presbiteriana da Madalena, no final de 2001. Aquela era a comunidade onde eu passara a infância e adolescência, tinha sido convidado para concorrer à sucessão do Rev. Edijece Martins pelo próprio pastor, que a liderara com honra e brilhantismo por mais de três décadas. Mas as forças do legalismo e do retrocesso se fundiram em todo o país para que eu não ocupasse aquele púlpito. Naquele ano não houve um eleito, ainda que tenha havido eleição. No final de 2002 tudo se repetira, só que desta vez cumulado de covardia e mentira. Perdi a eleição para o Rev. Lutero Rocha, o qual não suportaria mais do que dois anos à frente da Madalena, vindo a renunciar ao seu mandato no final de 2004.
Voltemos aos últimos três meses de 2002. Eu era o secretário nacional de mocidade da IPB, presidente do Sínodo Central de Pernambuco, professor de Teologia Sistemática do Seminário Presbiteriano do Norte, mas um pastor em colapso. Tinha dificuldades em acreditar nas pessoas e instituições, pensei seriamente em me dedicar à carreira advocatícia e me afastar das igrejas (não da Igreja) que me haviam machucado tanto. Foi quando soube da desvinculação da Catedral da Santíssima Trindade e de seu pastor, o Rev. Paulo Garcia, da Igreja Episcopal Anglicana (soube no dia em que estava sendo examinado na Madalena). Liguei para o Pr. Paulo e me solidarizei com ele por sua decisão e coragem. Pouco tempo depois ele soube que eu havia perdido a eleição na Madalena e me convidou para que conversássemos. Foi assim que surgiu o convite para conhecer melhor a Catedral e a Igreja Episcopal Carismática.
Durante o ano de 2003 continuei pastor presbiteriano, ocupando todas as funções que eram de minha responsabilidade, menos o pastorado do Largo da Paz, o qual deixei após ter presidido o processo de eleição que levou ao púlpito daquela comunidade o Rev. João Fonseca. Lá na Catedral conheci melhor aquele que viria a ser sagrado Bispo de nossa denominação, Dom Paulo, bem como o Rev. Alexandre Ximenes e aos milhares de irmãos e irmãs que compõem aquela dinâmica célula de expansão do Reino de Deus. O misericordioso Senhor foi tratando de mim durante aquele ano. Minha última experiência na IPB foi receber a honra de ser paraninfo dos formandos de 2003 (já havia recebido a mesma distinção em 2002). Em dezembro de 2003 pedi exoneração de minhas funções na IPB e disse a o Bispo que estava pronto para receber as ordens em sucessão apostólica, o que de fato aconteceu nos primeiros dias de 2004, no templo da Catedral da Santíssima Trindade, tendo Dom Paulo como pregador e o Rev. Ximenes como mestre de cerimônia.
O ano de 2004 foi riquíssimo. Encontramos um perfeito entrosamento entre os pastores na Catedral, tudo fluía como se tivéssemos toda a nossa vida trabalhado juntos, éramos de fato um time. A imprensa local se referia aos pastores da Catedral (somada a presença do Rev. Caio Fábio) como o Real Madri dos púlpitos evangélicos. Foi um período de muito aprendizado. Eu posso dizer que mais do que ter estudado com Dom Paulo e Rev. Alexandre eu os estudei. Prestava atenção a tudo que eles diziam, mas, sobretudo, ao modo como diziam e àquilo que eles não diziam. Neste ano tive contato pessoal com grandes nomes do cenário cristão nacional e internacional, que eram convidados para ministrar aos alunos do Seminário Teológico Episcopal Carismático, que eu havia ajudado a fundar.
Quando soube que o Rev. Edgar Batista iria ser designado para o campo de Carpina, procurei o Bispo para lhe falar sobre o meu desejo de ser o pastor da juventude da Catedral. Foi quando ele me disse que seus planos para mim eram outros. Queria que eu auxiliasse o Rev. Caio na implantação de uma comunidade na Zona Sul de Recife, especificamente no bairro de Boa Viagem. Eu havia tomado a decisão de aceitar quaisquer que fossem as diretrizes estabelecidas por Dom Paulo, mas confesso que fiquei preocupado. Temia perder aquela amizade e proximidade que tanto estavam me edificando, já me sentia em casa na Catedral, era amado e respeitado por membros e funcionários da igreja, mas obedeci.
Após a trágica morte de Lucas, filho do Rev. Caio, ele decidiu não mais vir para o Recife, contudo, o projeto já em andamento de uma Paróquia em Boa Viagem continuou. Reuni um grupo de não mais que dez casais, começamos a esboçar o que viria a ser a nossa comunidade. Claudicéia preparou e mandou confeccionar todos os objetos litúrgicos, desde as estolas aos cálices. No dia 28 de julho, no auditório mais do que lotado do Mar Hotel, começou a funcionar a Paróquia da Reconciliação (este nome foi idéia de D. Márcia Garcia, esposa de nosso Bispo), eu preguei sobre o texto: “ele nos deu o ministério da reconciliação”, II Cor. 5:18. O primeiro culto dominical ocorreu no dia 01 de agosto e o pregador foi o Rev. Caio Fábio. Eu estava esperando uma audiência de umas cem pessoas. Como Claudicéia insistiu muito eu mandei fazer duzentos boletins e me programei para enviar pelo correio os exemplares que sobrassem. Para a glória de Deus havia mais de quatrocentas pessoas em nosso primeiro culto e de lá pra cá nunca houve um domingo em que este número não tenha aumentado.
Hoje a Reconciliação congrega mais de oitocentas pessoas todos os domingos e é um presente de Deus para esta cidade... mas a história da Reconciliação eu conto outro dia.
Obrigado Senhor por tua misericórdia e fidelidade!
Com emoção,
Martorelli e Claudicéia Dantas
Com emoção,
Martorelli e Claudicéia Dantas
terça-feira, novembro 14, 2006

Conte Comigo
Eu sempre fui um defensor da edição da Bíblia na Linguagem de Hoje. Desde a década de 80, quando ela foi lançada eu sempre fiz uso dela e a recomendei aos meus alunos e paroquianos. Isso não apenas porque o seu vocabulário é mais fácil e simples, mas também porque esta tradução da Bíblia é confiável e de excelente qualidade. Contudo, uma das maiores virtudes da BLH é a construção poética que nela encontramos. Um exemplo disso está na tradução do texto do Evangelho de Marcos, capítulo 5, versículo 36. As traduções antigas trazem algo mais ou menos assim: “não temas, crê somente”, a tradução na Linguagem de Hoje diz “não tenha medo, tenha fé”. A forma direta e contundente de se dizer isso, naquele contexto de drama e dor, amplia a beleza e o poder das palavras de Jesus àquele pai angustiado.
É por esta razão, que muitas vezes eu me pergunto como Jesus diria uma determinada frase se estivesse hoje conosco. Um dos versículos que me são mais caros no Novo Testamento é a promessa do Mestre: “eis que eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos”. Como será que ele diria isso hoje? Creio que seria algo simples e poderoso como “conte comigo”; “conte comigo aconteça o que acontecer, em todos os dias da sua vida”; “conte comigo, na alegria e na dor, na vida e na morte, na sorte e na desventura”, simplesmente “conte comigo”.
Vivemos em um mundo em que cada pessoa conta só consigo. Nunca estivemos tão sós. Nunca o individualismo foi uma categoria de pensamento tão predominante. Todos os dias eu me policio para que os meus planos para o futuro não sejam só para mim, que eles incluam minha esposa, meus filhos, meus irmãos e amigos, mas é como se eu tivesse que lutar contra uma força que habita em mim e que constantemente me convida para pilotar o meu avião-caça, cuja cabine cabe só a mim e cujo plano de vôo interessa somente a mim. Precisamos que o Espírito continue operando em nós a sua obra de conversão e de transformação, desta feita, fazendo com que nos voltemos para fora de nós mesmos, capazes de sincera e profundamente nos preocuparmos com os outros, seus medos e necessidades, desilhando o nosso coração para transformá-lo em um continente de solidariedade e amor.
A verdade é que não precisamos fazer muito, não precisamos transformar as nossas casas em abrigos para idosos, abrir uma creche e nela acolher todas as crianças carentes da vizinhança ou deixar os nossos empregos para nos dedicarmos à recuperação de drogados ou de crianças com câncer. Tudo isso é necessário e extraordinariamente meritoso, mas não é pra todo mundo, nem mesmo para todos os cristãos. Bastaria que nos dispuséssemos a algo mais simples, mais imediato, mais acessível a qualquer um... dizer às pessoas que estão próximas a nós, que estão abatidas, tristes, ou desesperadas a divina frase: “conte comigo”. Qualquer um pode dizê-la e todos nós precisamos ouvi-la. Não há ninguém neste mundo que não seria mais feliz se soubesse que, de fato, tem com quem contar.
Tenho a impressão que aí está a cura para todos os males, para as mais graves mazelas da sociedade contemporânea, mais relevante que a cura da AIDS e dos tumores malignos, capaz de promover a paz no Oriente Médio, aplacar a fome na África e por um fim às favelas da América Latina. Creio que o mundo precisa urgentemente (re)descobrir o poder que tem o “conte comigo”, como expressão de solidariedade, de amor, de respeito, de compreensão. Quem sabe este movimento poderia começar aqui e agora, comigo e com você levantando-nos e dizendo com verdade e carinho às pessoas que estão à nossa volta: “conte comigo”. É possível que não víssemos todos os males do mundo sendo resolvidos diante de nós no momento em que terminássemos de pronunciar a frase, mas ali diante dos nossos olhos, ao alcance de nossas mãos, estaria uma pessoa mais feliz. Além disso, do lado de cá da relação estaria alguém que, finalmente, estaria seguindo os passos de Jesus, vivendo como ele viveu, tratando as pessoas como ele tratou.
Termino este texto lembrando a você que o Rabino da Galiléia nos fez uma promessa e as suas promessas são verdadeiras. Se você estiver se sentindo triste e só, sem esperanças ou forças, cansado demais para continuar tentando ser feliz, creia que ele está ao seu lado sussurrando aos seus ouvidos “conte comigo”.
Conte comigo!
Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org
quinta-feira, novembro 09, 2006
Eu, Um Cliente Chato
Nesta semana eu fui um dos pregadores no culto ecumênico de formatura de uma turma de arquitetura da UFPE, a turma de Bruno, filho de Robervan e Francisca. Em minha prédica ocorreu-me fazer uma metáfora entre algo que os novéis arquitetos iriam encontrar com relativa regularidade em sua carreira e algo que Deus tem que lidar todos os dias, os clientes chatos. Refiro-me dos chatos de verdade e não daqueles ligths dos quais fala o Oswaldo Montenegro, que é o cara a quem você pergunta “como vai?” e ele passa duas horas respondendo a esta pergunta que era apenas uma forma de cumprimentá-lo; é aquele aquém você diz “passa qualquer dia desses lá em casa” e no dia seguinte ele está lá, às 7:30 da manhã.
Refiro-me ao chato de verdade, aquele que chega com mil elogios, dizendo que acredita na sua capacidade e em seu talento para colocar no papel o sonho que ele tem em sua alma, mas que pedem apenas um pequeno favor... que o deixem assistir silenciosamente enquanto o profissional de arquitetura faz a sua obra. Este, ainda que constrangido, concorda. Não quer decepcionar quem sabe o seu primeiro cliente, mas logo se arrependeria.
Tudo começa quando ainda o arquiteto está colocando os primeiros traços no papel. O cliente observa, não está entendendo o significado daquilo e diz que não está gostando. O arquiteto pacientemente pede para que tenha paciência, pois ele está apenas começando o seu trabalho. Meia hora depois, quando o profissional traçou os elementos básicos de seu projeto, o chato pede licença para ser franco e afirma que quer ser sincero com seu amigo e diz: “eu não estou mesmo gostando, eu quero uma casa bela e inovadora, mas você está traçando apenas uma caixa sem muito brilho”. Mais uma vez, o nosso herói comenta, “eu estou no meio da obra, você não pode tirar conclusões apressadas, ainda estou estruturando o desenho, dá pra você esperar mais um pouco para fazer seus julgamentos?”
Parece que as coisas andam bem, quando, passadas mais meia hora, o chato, não suportando mais afirma: “talvez seja melhor você parar, eu não estou gostando mesmo, com a licença da palavra, está ficando mesmo uma droga tudo isso”. “É a última vez que eu lhe peço para esperar eu chegar até o fim, por favor, fique sentado e em silêncio, espere que eu conclua o trabalho”. Você acha que já viu tudo, quando para lhe torrar completamente, findo o projeto, o chato olha para ele com brilho nos olhos e diz: “bem que eu disse que ia ficar ótimo!”
Deus tem enfrentado estes chatos todos os dias. Muito provavelmente eu e você sejamos um destes “clientes” insuportáveis. Estamos o tempo todo desgostosos com aquilo que estamos vendo e vivendo em nossa experiência. Ainda que não estejamos dispostos a confessar, frequentemente, rejeitamos a nossa vida e os acontecimentos que nela se dão. Dizemos a Deus que não estamos entendendo o que ele está fazendo conosco e pedimos para que ele mude a sua obra em nossa história. O Criador, com grande longanimidade, observa a nossa impaciência e falta de fé e tenta nos dizer por todas as formas possíveis: “Calma, eu ainda não acabei. Estou apenas começando a minha obra em sua vida”.
Creio que a confiança em Deus, em sua fidelidade e provisão, é o caminho para uma vida segura e em paz. No meio de tantas incertezas o Senhor nos oferece a possibilidade de caminharmos em comunhão com o seu Espírito, único modo de manter o medo do lado de fora de nossas almas, enquanto enfrentamos os nossos inimigos e às adversidades tão comuns aos mortais.
Nesta semana eu fui um dos pregadores no culto ecumênico de formatura de uma turma de arquitetura da UFPE, a turma de Bruno, filho de Robervan e Francisca. Em minha prédica ocorreu-me fazer uma metáfora entre algo que os novéis arquitetos iriam encontrar com relativa regularidade em sua carreira e algo que Deus tem que lidar todos os dias, os clientes chatos. Refiro-me dos chatos de verdade e não daqueles ligths dos quais fala o Oswaldo Montenegro, que é o cara a quem você pergunta “como vai?” e ele passa duas horas respondendo a esta pergunta que era apenas uma forma de cumprimentá-lo; é aquele aquém você diz “passa qualquer dia desses lá em casa” e no dia seguinte ele está lá, às 7:30 da manhã.
Refiro-me ao chato de verdade, aquele que chega com mil elogios, dizendo que acredita na sua capacidade e em seu talento para colocar no papel o sonho que ele tem em sua alma, mas que pedem apenas um pequeno favor... que o deixem assistir silenciosamente enquanto o profissional de arquitetura faz a sua obra. Este, ainda que constrangido, concorda. Não quer decepcionar quem sabe o seu primeiro cliente, mas logo se arrependeria.
Tudo começa quando ainda o arquiteto está colocando os primeiros traços no papel. O cliente observa, não está entendendo o significado daquilo e diz que não está gostando. O arquiteto pacientemente pede para que tenha paciência, pois ele está apenas começando o seu trabalho. Meia hora depois, quando o profissional traçou os elementos básicos de seu projeto, o chato pede licença para ser franco e afirma que quer ser sincero com seu amigo e diz: “eu não estou mesmo gostando, eu quero uma casa bela e inovadora, mas você está traçando apenas uma caixa sem muito brilho”. Mais uma vez, o nosso herói comenta, “eu estou no meio da obra, você não pode tirar conclusões apressadas, ainda estou estruturando o desenho, dá pra você esperar mais um pouco para fazer seus julgamentos?”
Parece que as coisas andam bem, quando, passadas mais meia hora, o chato, não suportando mais afirma: “talvez seja melhor você parar, eu não estou gostando mesmo, com a licença da palavra, está ficando mesmo uma droga tudo isso”. “É a última vez que eu lhe peço para esperar eu chegar até o fim, por favor, fique sentado e em silêncio, espere que eu conclua o trabalho”. Você acha que já viu tudo, quando para lhe torrar completamente, findo o projeto, o chato olha para ele com brilho nos olhos e diz: “bem que eu disse que ia ficar ótimo!”
Deus tem enfrentado estes chatos todos os dias. Muito provavelmente eu e você sejamos um destes “clientes” insuportáveis. Estamos o tempo todo desgostosos com aquilo que estamos vendo e vivendo em nossa experiência. Ainda que não estejamos dispostos a confessar, frequentemente, rejeitamos a nossa vida e os acontecimentos que nela se dão. Dizemos a Deus que não estamos entendendo o que ele está fazendo conosco e pedimos para que ele mude a sua obra em nossa história. O Criador, com grande longanimidade, observa a nossa impaciência e falta de fé e tenta nos dizer por todas as formas possíveis: “Calma, eu ainda não acabei. Estou apenas começando a minha obra em sua vida”.
Creio que a confiança em Deus, em sua fidelidade e provisão, é o caminho para uma vida segura e em paz. No meio de tantas incertezas o Senhor nos oferece a possibilidade de caminharmos em comunhão com o seu Espírito, único modo de manter o medo do lado de fora de nossas almas, enquanto enfrentamos os nossos inimigos e às adversidades tão comuns aos mortais.
terça-feira, novembro 07, 2006

Como o mundo era grande quando eu era pequeno...
A maior casa do planeta era a casa da minha avó Cícera, no bairro da Várzea. Tinha milhares de hectares, um riacho passava no meio do quintal, havia galinhas, patos, cachorros... isto sem falar de uma infinidade de insetos de todas as cores e formas, a desafiar as minhas habilidades de caçador e, devo confessar, de médico legista. Como eu ficava feliz de ir pra lá. Quando meus pais viajavam e iam colocando os quatro filhos cada um na casa de um parente, eu já tinha destino certo. Mas assumo que nem era pela casa propriamente, era pelo quintal. Vovó precisava me chamar gritando para entrar e almoçar, pois eu não queria descer das árvores. Pra quê comer feijão e arroz se tem pitanga, jambo, banana, coco verde, mamão e manga... muita manga?
Minha avó é um doce de pessoa, hoje com quase cem anos, ela sempre soube me compreender. Sabia que eu queria me sujar, correr com os meus amigos, viver aventuras. Ah! Também tenho saudades da Barraca de Viana, onde eu podia comprar o que quisesse só dizendo que era filho de Hélio... Hélio de Seu Olegário. Quantas tardes sem fim passei entre aquele quintal e o campinho de futebol que ficava lá pras bandas da casa de Tia Lenira. Havia dois mundos imensos, um ao meu redor, outro dentro de mim, morando nas minhas fantasias e sonhos, que eram aquecidos pela vida simples espalhada por toda parte.
Uma das coisas mais tristes em crescer é que os nossos mundos vão diminuindo. A razão e a observação vão tomando o lugar do olhar criativo, capaz de inventar o cenário no próprio ato de enxergar. Nós vamos avançando na vida e nos tornamos menores na capacidade de apreciar pequenas experiências. Com o tempo vamos ficando tímidos e insensíveis. Não dá mais vontade de correr atrás de uma bolha de sabão e de voar, se for preciso, para alcançá-la a trinta ou quarenta metros do chão. Vai batendo aquela preguiça de enfrentar piratas e bandidos de todos os tipos, armado unicamente com um pedaço de cabo de vassoura, partido especialmente para se converter em uma espada, com poderes mágicos de fazer desintegrar o adversário com o mais leve toque. Tudo vai ficando tão real... tão pobre.
Eu trocaria sem pestanejar uma semana de adulto por uma tarde de criança. Quando eu era pequeno planejava que quando ficasse grande e tivesse meus filhos eu iria brincar o dia inteiro com eles, mas não dá. Agora eu sou adulto e adulto é cego e surdo. É incapaz de perceber a diferença entre uma caixa de fósforos e um edifício repleto de soldados alemães que precisamos derrotar com um exército de tampas de garrafa. Como eu não consigo ouvir o que dizem as bonecas de Thainá e que ela escuta tão claramente que é até capaz de pedir pra elas falarem mais baixo “porque painho está estudando”? Estou perdido! Sou irremediavelmente adulto.
Hoje, lamentavelmente, vou pouco à casa de minha avó. Talvez pelo desconforto de ver um quintal, comparativamente, tão pequeno. Lembro de ter perguntado a meu pai se tinham vendido parte do terreno. E ele, como se adivinhasse meus pensamentos, respondeu que não, que aquele quintal era do mesmo tamanho desde o tempo em que ele mesmo era menino. Mas o fato é que ele foi mais criança do que eu naquele lugar, e, quem sabe por isso, tenha absorvido mais dos seus encantamentos. Eu já era adulto aos 14 e meu pai uma criança aos 40. Há muito dele dentro de mim, mas é como se eu não pudesse deixá-lo fluir, sob o risco de fazer traquinagens demais.
Um dia ainda vou ter coragem de parar o meu carro no meio da chuva ao lado de um grande e belo telhado de zinco, fazer descer Thiago e Thainá e vou tomar banho bica com roupa e tudo ao lado deles. Não faz muito tempo que chamaram Claudicéia na diretoria do colégio, porque Thiago tinha se molhado todo num fiozinho de água que caía do telhado da escola. Ainda bem que foi Claudicéia, porque se fosse eu tinha brigado com ele: “Thiago, isso é bica onde você tome banho meu filho? Respeite a tradição da família e só tome banho em bica boa”!
Tão pouco já nos fez tão felizes. Tanto só nos tem permitido viver. Alguém aí empina papagaio?
Com carinho,
Martorelli Dantas

Coisas idiotas pra rir mais que pensar
1 - Quando as coisas ficarem muito complicadas, seja simples.
2 - Quando não houver nada a fazer, não faça nada e descanse.
3 - Compre sempre menos do que você precisa. Você nunca precisa mesmo de tudo que compra.
4 - Quando quiserem lhe obrigar a andar um milha, pergunte: por quê? Se não lhe responderem, pergunte: por onde?
5 - Rir nem sempre é o melhor remédio, às vezes é só um jeito de esconder a doença.
6 - Se ganância fosse virtude, banqueiros e corruptos seriam santos.
7 - Pensar se terei amanhã é inútil. Amanhã eu não serei.
8 - A melhor forma de fazer dieta é não sentir fome. Para não sentir fome coma sempre. Se você não perder peso, vai ganhar vida. Mas coma devagar...
9 - Seu risco não é torto, os outros é que são tortos em relação a ele.
10 - Quando eu penso em tudo que eu tenho pra fazer me dá uma preguiiiiiça..., aí eu penso noutra coisa.
11 - Se alguma coisa ruim tem que acontecer na sua vida, pra que se preocupar coma ela? Se você pode evitá-la, pra que se preocupar com ela?
12 - Você já se perguntou por que todas as coisas nesta vida têm que terminar? Nem tudo. A gente nunca termina de fazer esta pergunta.
13 - Se soubesse todas as coisas que irão acontecer na minha vida, eu mudava tudo só por implicância.
14 - Só tem uma coisa mais insuportável do que música brega, é gente que gosta de música brega.
15 - Para viver bem é preciso pensar pouco. Ser sábio não é viver num emaranhado de pensamentos, é agir com sabedoria.
16 - A melhor maneira de lidar com as obrigações é por nelas uma fantasia de diversão.
17 - A questão não é resistir à vontade é mudá-la.
18 - Quando eu acordo e não sinto vontade de caminhar, eu simplesmente me levanto e penso nas razões pelas quais eu não deveria caminhar. E faço isso caminhando.
19 - Se você quer saber o que Deus pensa a respeito do que você está fazendo com as pessoas, pergunte a elas.
20 - Eu só sinto pena de quem sente pena de si mesmo.
21 - Não adianta esperar que as pessoas lhe tratem como tratam todo mundo. Você não é como todo mundo, mas todo mundo é como você.
22 - Deixar de fazer ou dizer alguma coisa por medo de parecer medíocre é a coisa de gente medíocre.
23 - Falar tudo que pensa é irresponsabilidade, sinceridade é só falar aquilo que pensa.
24 - Para não se arrepender depois de comprar, se arrependa antes de comprar.
25 - Existem dois tipos de pessoas neste mundo, as que sabem que são idiotas e as que não sabem. Eu sei.
A minha idéia é escrever 365 pensamentos idiotas. Ih!! é melhor só escrever 364.
Com carinho,
Martorelli Dantas

Tempus Fugit: a arte de saber viver
Em muitas casas, no passado, havia um móvel cuja função era ser um guardião do tempo, refiro-me aos relógios de carrilhão, capazes de marcar as horas com seu canto de passagem e até mesmo os minutos com um tic-tac tão sonoro que se podia ouvir durante todo o dia, particularmente no silêncio da noite. Um antigo mestre, Rubem Alves, costuma dizer que estes relógios, bem como todos os demais, falam conosco, dizem: tempus fugit, o tempo foge, escoa, escapa por entre os nossos dedos. Quanto mais eu vivo, mais me convenço de que isto é verdade.
Posso dividir a minha vida em duas fases: a primeira, em que as pessoas me diziam: “você é novo demais pra isso...” e a segunda, em que elas me dizem: “você não vê que já está velho demais pra isso...”. Aí não há como evitar que bata uma angústia. Será que nunca estamos prontos para os desafios da vida? Será que haverá sempre uma inadequação entre a maturidade/capacidade que as pessoas percebem em nós e aquilo que a vida demanda?
Eu, de minha parte, jamais liguei para estes “alertas”. Aprendi que eu estou no ponto para viver o dia de hoje! Fiz sempre o que as pessoas não queriam que eu fizesse por ser novo demais e almejo, um dia, me tornar um velho que escandalize até mesmo os meus melhores amigos, fazendo o que não se faz em “certas idades”. O meu compromisso é com a vida e não com a conveniência; com a verdade que se coloca diante dos meus olhos e não com o consenso; com o amor ao próximo e não com o aplauso do próximo. Não quero ser coerente, eu não posso ser.
Eu nasci do ventre de minha mãe sozinho e um dia partirei para o ventre da mãe-terra igualmente só, portanto levo a vida com os outros e não para os outros. Quero expressar respeito e carinho, mas não submissão e passividade. Não exijo que ninguém ande comigo, nem que concorde com o meu modo de caminhar. Peço apenas que me respeitem e que me compreendam como um homem fazendo escolhas, as suas escolhas, que é o único modo de se viver.
O Senhor me ensinou que a melhor maneira de existir é viver plenamente este fugidio momento que se chama presente, o dia de hoje. O presente é um presente de um Deus presente. Eu preciso torná-lo único, especial, memorável. Para isso, faz-se necessário que eu me desvencilhe do passado. Quero olhar para trás sem mágoas e ressentimentos. Distribuo prodigamente o perdão, a minha “luta não é contra a carne e contra o sangue”, não é contra as pessoas, mas contra idéias, posturas, atitudes e estas foram já não são. Não há porque lutar hoje contra o que só existiu ontem.
Também não sou um cruzado, empreendendo “guerras santas”. Deus cuida de si e do que é seu. Se a terra é santa, o é porque Ele a guarda, não eu. A única terra sacrossanta que me foi confiada é o meu próprio coração. Que nele não habitem os ídolos da vaidade, da arrogância, da auto-suficiência; que nele não se erijam altares para a ilusão das riquezas, à opulência mentirosa dos títulos e patentes, à maligna petulância piegas que despreza o abraço e o sorriso.
Até hoje nunca vi um soldado-raso prestando continência pra túmulo de general. Os mais belos, os mais sábios, os mais fortes, os mais ricos, os mais virtuosos entre nós, cedo ou tarde, vão virar refeição de tapuru. Mas também não me preocupo com eles. Que esperem muito por mim, porque hoje estou ocupadíssimo vivendo. Quero amar minha mulher debaixo dos nossos lençóis, viajar com meu filho, dançar uma valsa com minha filha, sorrir muito de estórias idiotas com meus amigos, chorar lendo um poema de Drummond, rever velhos filmes, ouvir Chico e quedar-me silencioso ante a beleza inexprimível de um crepúsculo no sertão. Isto é vida, o resto são coisas que fazemos enquanto estas não vêm.
Também aprendi a arte de travestir de prazer tudo que se chama obrigação. Quando os professores exigem que leia pilhas de textos sobre assuntos desinteressantes. Eu brinco com os livros, rio deles, chamo-os para passear comigo. Às vezes penso que sou capaz de me divertir lendo até lista telefônica. Nada é impossível pra quem tomou a decisão de rir, sobretudo de si mesmo e de suas inúteis e efêmeras construções. Quando estou preparando um sermão ou escrevendo um texto como este, não penso nas transformações que eles podem promover na vida das pessoas. Sinto a alegria terna e simples de fazer, de pré-parar, como uma mulher que sente tanto prazer em se vestir para o amor como em amar propriamente.
Também aprendi a fazer do futuro o meu melhor amigo. Quando penso sobre ele só vejo coisas boas. Não antevejo nem a ruína nem a dor. Se estas me sobrevierem me tomarão de surpresa. Quero que seja assim. Não vou, como já vi muitos, me preparar para o que não quero viver, pois fazê-lo seria um modo de lhe invocar. Ansiedade não é pensar no futuro, é sofrer com o futuro, mas o meu futuro não me faz sofrer, posto que é meu amigo. No futuro eu sou sábio e magro, amado e amante, mestre e aprendiz. Não sou rico, porque ser rico dá muito trabalho.
No futuro eu morro, que morrer não é ruim, é só uma viagem que nos “convidam” a fazer antes da hora, e eu embarco em sua nau cheio de curiosidade. Deixo pra trás meus amigos e inimigos chorando, estes por nunca terem me pegado, aqueles por nunca terem me perdido.
Com carinho,
Martorelli Dantas

Miopia e Astigmatismo
Creio que você já ouviu falar destas disfunções do aparelho visual. A miopia, explicada de forma excessivamente simples, é a dificuldade de ver aquilo que está longe e o astigmatismo de ver o que está perto. Estas enfermidades podem se dar por diferentes razões e diferentes graus. Há aqueles que padecem por causas congênitas e aqueles que desenvolvem de modo personalíssimo. Já ouvi dizer, inclusive, que perto dos 40 anos a maioria das pessoas tem dificuldades em enxergar nitidamente aquilo que está próximo de seus olhos, como se fosse uma dificuldade para focar o que está bem diante dos nosso olhos. É aí que nos fazem falta braços mais longos J.
As dificuldades físicas podem ser, quase sempre, facilmente resolvidas através de óculos, lentes de contato e outros artifícios médicos, mas e quando a miopia é da alma e o astigmatismo é do coração? É... a alma e o coração não apenas podem padecer destes males, como também podem chegar a cegar completamente. Também há diferentes graus de miopia e astigmatismos na sensibilidade humana. Creio, de fato, que há um equivalente existencial e espiritual para todos os sentidos humanos, bem como enfermidades próprias. Contudo, o que seriam miopia e astigmatismo na dimensão existencial?
Miopia existencial é a incapacidade (ou dificuldade) de enxergar, perceber, valorizar aquilo ou aqueles que estão longe. É o caso, por exemplo, de quem olhando para o futuro não vê qualquer saída, qualquer perspectiva de vitória, de crescimento, de solução. E isto acontece, via de regra, como reflexo da dificuldade de olhar para o passado e lembrar quantas vezes situações difíceis e aparentemente sem saídas foram vencidas. Se todos nós fôssemos capazes de manter o foco de tudo quanto Deus já fez por nós, de todas as oportunidades em que Ele nos livrou, proveu aquilo que nos era necessário, dificilmente seríamos ansiosos em relação ao futuro. Não é por outra razão que o profeta diz “quero trazer à memória aquilo que pode me dar esperança” (Lamentações de Jeremias 3:21).
É miopia também a atitude daqueles que só conseguem ver o momento presente, o instante presente, esquecendo-se que é preciso “poupara para o futuro”. A figura aqui não pretende ser econômica, mas continuamos em trilhas da existencialidade. Nada é de graça nesta vida. Quando não se paga com dinheiro, se investe tempo, energia, expectativas. Enfim, cada um precisa pagar o preço das escolhas que faz (e às vezes a vida cobra com juros). É necessário que sejamos sábios no uso das palavras e no exercício de quaisquer atividades que realizemos, lembrando que elas não ficam sem conseqüências. Elas constroem realidades e tecem destinos. O amanhã sempre nos chama para um ajuste de contas. É natural que colhamos aquilo que plantamos e não uma espécie diferente daquela que semeamos.
E o astigmatismo existencial? É a dificuldade de ver o que está perto, de dar valor àquelas pessoas que estão à nossa volta, de ver no “aqui e agora” a mão de Deus agindo em nossas vidas. Assim como no mundo físico, há mais pessoas com astigmatismo espiritual do que com miopia. É comum que o nosso cônjuge (e seus sentimentos) esteja tão perto de nós que não o vejamos. Parece contraditório, mas é exatamente isso, não vemos porque está perto demais. E os nossos filhos... vemos os seus corpos, seus quartos, seus brinquedos e até tropeçamos neles, mas será que enxergamos os seus corações? Será que conseguimos escutar a voz que fala a sua alma, se nem mesmo temos tempo para ouvir o que sai de suas bocas? Ah se você soubesse como dói estar perto e não ser visto! Como entristece e machuca estar do lado de alguém e mesmo assim perceber que este alguém, emocionalmente, está cego e não nos dá valor.
Eu conheço bem uma pessoa que sofre este problema. Ele me diz com freqüência que uma de suas maiores tristezas é o fato de que os homens, mesmo os mais sensíveis e cordatos, não o enxergam. Esta é a queixa de Deus. O problema não é que Ele seja invisível, a questão é que os olhos que nos deu para que o víssemos estão cegos (ou gravemente doentes). Ele faz gestos, nos sacode, grita por nós, mas nós não o vemos. Continuamos levando as nossas vidas como se Ele não existisse, como se não estivesse perto de nós.
O que poderíamos fazer para tratar nossas doenças? No livro de Apocalipse (3:18) Jesus nos fala de um colírio que se for aplicado sobre os nossos olhos nos torna capazes de ver tudo. Quem sabe o Senhor não nos unja hoje com este bálsamo óptico, nos estamos precisando. Vamos orar por isso.
Com carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliacao.org

1º de janeiro de 2006(b)
Eu sempre fiquei entusiasmado com a aproximação do fim do ano. Sou daqueles que tomam um pedaço de papel e anotam todas as extraordinárias mudanças que se darão em sua vida no próximo ano. É impressionante a motivação que enche o meu coração neste período, admira-me a certeza que me acomete de que tudo isso assim será. É uma espécie de sensação mágica que invade o nosso imaginário e enternece os nossos corações, fazendo-nos não apenas mais fraternos como também mais esperançosos.
Acontece que, em minha opinião, ainda falta muito pra o final do ano, e tomei a decisão de antecipar as comemorações. Quero propor a todo mundo que imagine que hoje é o dia 31 de dezembro de 2005(b) e que amanhã será “dia de ano novo de novo”. Quem disse que não podemos? Onde está escrito que não temos o direito de nos dar uma segunda chance? Na verdade, o que eu consigo entender olhando tudo quanto Deus fez é que Ele tem muito prazer em que tentemos novamente. É isto que eu concluo observando o caráter cíclico das estações e da vida. A existência não é feita de “começo, meio e fim”, mas de “começo, meio, fim e recomeço”. Não é por outra razão que a idéia de reencarnação é tão popular na humanidade e está presente em muitas das grandes religiões do mundo (budismo, hinduísmo e nos diferentes tipos de espiritismo).
Aparentemente o homem tem uma convicção interior, que não demanda de muita prova, de que esta vida não é o fim e de que ela é breve demais para ser a nossa “única chance”, daí a doutrina de que há outras vidas após esta. Eu não creio nisto, mas acredito de todo coração de que podemos viver muitas vidas nesta que agora experimentamos, ou seja, que podemos renascer várias vezes antes de morrer, de que somos capazes de nos reinventar, de nos recriar, para usar as palavras de Jesus, de nascer de novo. Creio que é isto que Deus deseja e quer operar em nós, que através de freqüentes e profundos renascimentos nos aproximemos mais dEle e de nossos irmãos, que tenhamos uma melhor qualidade de vida e que aprendamos a ser felizes.
Talvez você creia na reencarnação e pense que o que eu estou escrevendo contraria a sua fé. Sinceramente não é este o meu objetivo. Não quero discutir uma doutrina com você, principalmente esta que você só vai saber mesmo se é verdade ou é mentira depois de morrer. O que eu estou propondo é uma coisa mais simples. Ao invés de ficarmos discutindo sobre as nossas crenças, vamos aproveitar que estamos vivos e vamos viver melhor. Mas como isso é possível? Entendo que foi só isso que Jesus quis nos ensinar e a nossa mente complicada não conseguiu ainda captar. Vamos renascer à meia-noite de hoje, no romper do ano novo. Como faremos?
Em primeiro lugar, vamos vestir uma roupa adequada para o momento, pode ser aquele seu pijama mesmo, mas vista-o com a expectativa de que algo absolutamente extraordinário vai acontecer. Depois, vamos tomar algumas decisões importantes: neste ano novo vou parar de sonhar e começar a agir; vou deixar de ser uma pessoa de boas intenções e me transformar em alguém de grandes ações; vou perdoar a quem eu preciso perdoar, vou pedir perdão a quem eu preciso pedir perdão (que estas coisas não resolvidas dão um “azar” danado); vou dizer a Deus que eu confio nEle e que estou pronto para fazer a mais importante viagem de minha vida, o “Caminho da Vida Feliz”. Mochila nas costas e pés na estrada.
Muitas pessoas pensam que para começar uma fase nova em suas vidas precisam trocar de casa ou apartamento, de marido ou de esposa, deixar de morar com os pais ou com os filhos, mudar de emprego ou de ramo. Em minha opinião isto é só desculpa para não ver a realidade. O fato é que é mais fácil pensar que a culpa por não sermos felizes é dos outros ou das circunstâncias de nossas vidas. A Bíblia nos ensina que o caminho da felicidade é interior e pode ser trilhado sejam quais forem as circunstâncias, na companhia de quem quer que seja. Paulo, por exemplo, conseguiu “viver contente em toda e qualquer situação”. Qual o segredo? Esperança, gratidão, fé e ação! Quem não pode ter estas coisas? Onde elas não são possíveis?
Ah, sim! Eu ia esquecendo... depois de tomar todas estas decisões dê as mãos a alguém e ore com ele. Diga: Senhor, obrigado pelo privilégio de viver este “ano novo de novo”, ajuda-me com a tua graça a renascer em vida e de modo diferente, porque mais importante do que começar de novo é começar de modo novo.
Com carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@reconciliacao.org
P.S.: Se não tiver ninguém com quem orar ligue ou escreva pra mim, eu vou estar acordado.
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