segunda-feira, maio 16, 2011

Jesus, O Verdade!!!


Jesus é a Verdade. Os homens só têm opiniões e impressões a respeito da verdade. Por isso não sinto nenhum prazer em discutir opiniões, antes, prefiro, dar testemunho da Verdade, que não pode ser traduzida em palavras, dogmas ou discursos. Mas pode ser experimentada, como um por de sol ou um longo abraço entre amigos.


Quando Pilatos perguntou "o que é a verdade?", ficou sem resposta porque a Verdade estava diante dele, ele poderia abraçá-la, cheirá-la e apalpá-la, mas não havia nada para ser dito a ele. Nem a ele, nem a mim, nem a você. Tudo quanto foi dito como verdade ou a respeito da Verdade é infinitamente menor que O Verdade.


Contudo os homens têm esta obsessão por saber a verdade. E enganam a si mesmos dizendo que suas opiniões são a Verdade. Porque O Verdade só pode ser seguido, enquanto estas pseudo-verdades humanas podem ser possuídas, vendidas e adequadas às necessidades e interesses de quem detém o poder.


Não sou um relativista. Quem é relativista acredita que não existem verdades absolutas e que a verdade se constrói em cada indivíduo de modo próprio e vário. Eu acredito no absoluto de Deus e na depravação dos homens. Logo, O Verdade é pleno e absoluto, mas os homens, sendo caídos, são incapazes de compreendê-lo em toda sua grandeza e glória.


Daí o absurdo das Confissões de Fé institucioalizadas. Elas se afirmam, e são afirmadas por quem as sustenta, como redução humanamente produzidas das verdades eternamente reveladas. Como evitar que as confissões não sejam maculadas pela Queda presente em cada um e em todas assembléia?


O confessionalismo, e, de resto todo dogmatismo teológico, finda por fazer exatamente o que combate. Para evitar que se levantem heresias que ameacem a sadia doutrina da Palavra, erigem edifícios teológicos que só podem se manter de pé e cumprir o seu papel, se forem assumidos como verdadeiros e inerrantes, assim sendo, a Confissão se torna um "outra-Escritura", em certo sentido, maior que a Escritura, uma vez que diz a mim e a você o que devemos crer como resultado de nossas leituras da Palavra.


Qual a minha proposta em resposta a isso. Creia e viva a verdade! Dê testemunho do poder e da fidelidade de Deus em sua vida. Abra mão de toda apologética e se entregue com a máxima radicalidade ao amor e à compreensão entre os homens. O século XVII pode ter sido o tempo das Confissões de Fé, mas o século XXI precisa ser o tempo das Profissões de Fé.


Quando eu professo a minha fé não espero que ninguém a aceite como verdade. Espero apenas que as pessoas escutem e que o Espírito Santo a use como meio para comunicação de sua presença em todas as vidas.


Com carinho,


Martorelli Dantas

frater et peccator

segunda-feira, agosto 23, 2010

O Verdadeiro Senhor dos Anéis


Por Martorelli Dantas


Começo o meu artigo desta semana com certo tom de constrangimento... confesso, eu não gostei da trilogia O Senhor dos Anéis. Digo “constrangimento”, porque a maioria das pessoas interessantes que eu conheço gostou. Um querido colega de seminário e depois meu professor no mestrado em Teologia, Dr. Ricardo Quadros Gouvêa, é um cultor do trabalho de Tolkien, desde antes de surgirem os filmes e as traduções de sua obra no Brasil. Mas por que será que eu não gostei? Talvez porque eu tenha me identificado com os vilões e não com os heróis. É horrível quando uma coisa assim acontece. Os vilões sempre levam a pior.


Durante vários dias ficou em minha cabeça a figura de Gollum (ou Sméagol), aquele ser asqueroso e pequeno que vivia uma relação de obsessão com o anel, cultuando-o, ao mesmo tempo em que, temendo-o, é seduzido pelo seu poder. Li em um artigo da Wikipédia esta interessante descrição do fascínio que o anel exercia: “O poder quase absoluto do anel corrompe o carácter e deforma a personalidade daquele que se atreve a empunhá-lo, ainda que movido por boas intenções”. Para mim está mais do que claro que o anel, da saga Frodo Bolseiro, é uma coisificação (talvez prefiram “reificação”) de todos os objetos de consumo, é uma jóia que sintetiza o poder de toda forma de tesouro que há na Terra.


Jesus disse que “onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração” (Mat. 6:21). Não é por acaso que Gollum repete sempre a expressão “meu precioso, meu precioso...”, enquanto beira o orgasmo, envolto na relação tóxica que mantém com o anel. Relações tóxicas são aquelas nas quais somos continuamente destruídos, mas, mesmo assim, não consiguimos nos desvensilhar delas. Estas relações nascem entre pessoas e substâncias, pessoas e bens e pessoas e pessoas. Nem as pessoas, nem as substâncias ou os bens são ruins em si mesmos, a relação é que é o problema. Quando a nossa mente se torna cativa desta relação, seu objeto é entronizado à condição sem a qual não (conditio sine qua non) há vida. Converte-se no epicentro de nossas existências e domina todo processo de pensamento.


Isto é diferente de amor, e até mesmo de paixão. Quando estamos apaixonados somos invadidos pelo desejo, por uma fome imensa de ter o outro perto de nós (ou dentro de nós), mas o outro mantém a sua identidade e nós a nossa. Na relação tóxica já não consiguimos pensar no prazer de estar com o outro, o que nos aflige é a possibilidade de perdê-lo, de, no momento seguinte, não tê-lo mais, por isso queremos possuí-lo, como se fôssemos espíritos malígnos que entram no outro e assumem o controle de sua vontade e caminho. Só assim nos sentiríamos seguros. Como isso não é possível, posto que nossa fisicalidade nos impede de fazê-lo, nos contentamos em “cheirar a coisa” o tempo todo, num esforço tanto inútil quanto angustiante de fazer com que ela seja parte de nós, que ela encarne em nós.


Ainda mais longe do amor está a relação tóxica. No amor a experiência de auteridade é absoluta. O que nos encanta é existência do outro fora de nós, o que possibilita a parceria e a cumplicidade. Nosso desejo não é anular a sua personalidade, para que tenhamos absoluto controle sobre ele, mas que ele, sendo ele, esteja perto de nós, como o som de uma bela música, que enternece e eleva a nossa alma simplesmente por existir. No amor andamos de mãos dadas, na paixão somos interpenetrados, mas na relação tóxica o que buscamos é o impossível, o irealizável, por isso nunca há descanso, nem banco de praça, nem sono post amore, só o desejo de sentir o desejo que nos aprisiona.


É por isso que afirmo que o Diabo é o Senhor dos Anéis. Pode ser que você nem creia na existência de um ser que seja a encorporação do mal, isso não importa, o que interessa aqui é que você perceba que a única realidade diabólica (do grego dia + baleo, aquilo que nos joga de modo atravessado, que nos rouba de nós mesmos e nos deixa caídos) é a toxicalidade das relações que estabelecemos. A missão de Jesus não foi morrer na cruz, mas nos mostrar que é possível viver neste mundo, fazendo do amor o nosso único tesouro. Quem fez esta alquimia, converteu as coisas tidas como insignificantes, como lírios e pardáis, em objetos de doçura; se capacitou a olhar para o Gollums desta vida com compreensão e vontade de libertação, já não perde nada na morte, nem teme a dor, pois sabe que a única realidade que lhe espera no instante seguinte da existência é uma nova forma de amar, uma nova e diferente manifestação da caridade Paterna.


Com carinho,


Martorelli Dantas, um cara que deseja, só desejar o amor.

quinta-feira, julho 22, 2010

Ecumenismo, uma utopia (sem lugar) à procura de um topos (lugar)

Por Martorelli Dantas*

O Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa define o verbete "ecumenismo" como sendo (1) movimento universal de união das Igrejas Evangélicas (protestantes). (2) O mesmo movimento estendido a todas as igrejas cristãs, abrangendo o protestantismo, catolicismo e os diversos ritos orientais (vem do grego oikoumenismós).

A palavra é composta de duas expressões gregas hoikós = casa / koumene = comum. Assim, ecumenismo nasce da utopia de que todos os seres humanos possam "habitar uma casa comum", ou seja, compartilhar a mesma fé e esperança espirituais. De fato, tal ideal jamais poderia ser vivenciado, quer seja porque há uma gama muito grande de diferenças entre as culturas, e a espiritualidade é expressão dos contornos culturais de um povo; quer seja porque há uma natureza fragmentária nos movimentos concretos de espiritualidade. Ao invés de caminharmos na direção da unidade, o que se verifica na experiência religiosa é que por menor que seja um grupo, ele tende a se dividir. São os irrefreáveis efeitos da vaidade e do orgulho, do narcisismo que só nos permite ver como convenientes e adequadas as manifestações intelectuais e confessionais que se assemelham às desposadas por nós e por nosso gueto. Como disse Caetano "narciso acha feio tudo que não é espelho".

O máximo que temos identificado é o que Francis Schaeffer chamou nos anos 70 de “cobeligerância”, a capacidade de pessoas que crêem em realidades diferentes se juntarem, momentaneamente, para lutarem contra um inimigo comum, como a legalização do aborto ou a proibição de cultos em espaços públicos. Este tipo de experiência não fala de identidade interna entre os grupos, mas de uma luta (beligere) feita em parceria (co). Para isso nem precisam ser grupos religiosos, visto que um sindicato de metalúrgicos e uma igreja batista podem, simultaneamente, combater a presença de traficantes em uma escola pública local. Ecumenismo é muito mais do que cobeligerância, mas inclui este conceito.

A pergunta que se mantém no ar é a seguinte: seria o ecumenismo uma proposta de fato conveniente para aqueles que professam fé em Jesus de Nazaré? Como ponto de partida, convém lembrar que o desejo de unidade entre seus discípulos é parte essencial da oração sacerdotal de Jesus, registrada no capítulo 17 do Evangelho de João. Vejamos a expressão literal dele no versículo 21, na qual diz que ora "para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste." Sim, Jesus desejava que a unidade de seus discípulos fosse um sinal visível de sua ligação com ele e com o Pai. Logo, há no Mestre o desejo de que aqueles que crêem nele andem juntos, sirvam uns aos outros, encarnem neste mundo caído e tenebroso “seu corpo e seu sangue”.

Penso que todos os que seguem a Jesus têm esta comissão, a de andarem juntos. Contudo, nossas diferenças doutrinárias falam mais alto que a oração de Cristo. Uns são pela predestinação, outros pelo livre-arbítrio; uns são sabatistas, outros guardam o domingo; uns são imersionistas, outros aspersionistas; uns acreditam no batismo com o Espírito Santo como uma segunda benção, outras acham que ele se dá na hora da conversão... as diferenças são tantas que cansaríamos de enumerá-las, mas será que alguma destas coisas é mais importante do que o desejo do Rabino da Galiléia de que andássemos juntos? Será que até questões mais sérias, do ponto de vista teológico, tais como crer na Doutrina da Trindade ou na suficiência da graça, seriam motivos para não andarmos lado-a-lado na proclamação das Boas-Novas?

A minha impressão é que o fracasso do ecumenismo está diretamente ligado ao egocentrismo e individualismo que grassam em nosso tempo. Mesmo quando eu olho para as religiões consideradas pagãs, vejo que há na abordagem cristã em relação às mesmas, uma impiedade muito maior do que a que foi ensinada no Novo Testamento. Por exemplo, Paulo quando foi evangelizar em Atenas, tomou como ponto de partida de sua pregação um elemento do panteão grego, “o altar ao deus desconhecido”. E diz que é justamente este que ele vinha anunciar. Claro que “o deus desconhecido” não era Jesus, era uma figura que se inserira na tradição ritual e litúrgica grega em uma conjuntura histórica local, mas Paulo achou que este elemento pagão poderia ser um link interessante para a proclamação que tinha para fazer. Quantos de nós teríamos o mesmo tino e coragem missiológica hoje?

Mas o zelo pela verdade do Evangelho não deve ser negligenciado. Não é possível que admitamos que “todo caminho dá na venda”, que toda forma de espiritualidade leva a Deus. A verdade é que muitas formas de espiritualidade nos afastam do Deus vivo e verdadeiro, revelado por Cristo Jesus e trazido até nós, por obra do Espírito Santo, através dos relatos canônicos. Algumas das mais perigosas destas espiritualidades desviantes estão justamente entre as comunidades protestantes, cito como exemplo a Teologia da Prosperidade e o Fundamentalismo Presbiteriano, ambas filhas do materialismo e da arrogância da cultura norte-americana.

Creio que devemos nos limitar, de modo radical, ao que foi ensinado pelo próprio Jesus, e isto feito de modo simples e claro. Aquilo que não foi anunciado por Jesus não é essencial. Aquilo que ele deixou de afirmar como caminho de salvação é, por isso mesmo, periférico. Tudo quanto eu elenquei acima, como pontos de bifurcação da fé cristã não aparecem no ensino direto do Salvador nos quatro evangelhos, e podem ser desposados por este ou por aquele grupo cristão, sem qualquer prejuízo para a unidade maior peticionada pelo Encarnado.

O que seria, então, essencial e inegociável? Sugiro sete verdades: fé na eficiência do sacrifício expiatório de Cristo, realizado de uma vez por todas na cruz do Calvário; consciência do amor e cuidado do Pai por todas as criaturas (por exemplo: pelos lírios do campo, pelos passarinhos e por todos os homens); decorrente desta consciência, a libertação de toda forma de medo ou de ansiedade, que escravizam e retiram a capacidade de vivermos confiantes e agradecidos no presente; ciência de nossa incapacidade de exercer qualquer tipo de julgamento sobre os nossos irmãos, uma vez que somos seres “travados” (com uma trave nos olhos); exigência do perdão às ofensas de nossos irmãos contra nós, como conditio sene qua nom para que fruamos o perdão do Pai em nosso favor; renúncia a toda forma de espiritualidade “para inglês ver”, de vida espiritual performática, mas um retorno à alcova da intimidade com Deus, exclusivamente sob seus olhos; disposição radical de nos desapegarmos de tudo que sirva de empecilho para que sejamos porta-vozes da “reconciliação realizada”, essência suprema da Boa-Nova cristã.

Todo ser humano que seja capaz de afirmar estas sete verdades será por mim chamado de “Meu Irmão!”. Todo aquele que, por uma questão de consciência ou de fé, não for capaz de subscrevê-las é “pródigo”, que sendo filho não se deixa amar como tal, mas que nem por isso deixa de sê-lo. A ele eu quero procurar e buscar, para dizer-lhe que o Pai não está com raiva dele, que, em verdade ele o ama e perdoa, que o quer em sua companhia. E quando, segundo a operação do Consolador, alguém crer no amor e se voltar para Ele, eu quero dançar no eterno baile dos arrependidos, para o qual eu sou continuamente convidado.

Alguém lendo esse modesto rol de verdades da fé poderá dizer: assim é fácil demais! Ao que eu responderia: É não! O problema nunca foi saber o que Jesus ensinou, mas o que nós temos a dizer sobre o que Jesus ensinou. São nossas interpretações autojustificativas que nos separam. É a água que pomos no vinho para que se torne mais palatável, que faz do Evangelho uma sangria, que nem é boa como o vinho, nem refrescante como a água. E assim caminha a humanidade... explicando para complicar, expondo para encobrir e anunciando para que ninguém conheça.

Devo confessar que não sou tão ecumênico como gostaria de ser. Parece-me que o ecumenismo radical exige um alto grau de indiferença em relação àquilo que crê e professa o outro. Eu não sou assim. Tenho em mim, ainda, uma fagulha apologética que me faz indignar, não contra budistas, islâmicos e hindus, mas contra aqueles que usando o nome de Jesus, fazem dele um déspota ou uma marketeiro de bens de consumo; um irmão-mais-velho que se queda indiferente, e até mesmo contente, pelo fato de ser agora o único a gozar (sem gozar) da comunhão com o Pai.

Foi ele quem nos chamou de volta à casa do Pai, nossa casa comum; que nos foi preparar lugar; que com um azorrague depôs do trono o usurpador legalista e perpetuamente irado que os fariseus haviam entronizado como Deus e fez no lugar-santo se assentar o “Pai Nosso que está nos céus”.


* Bacharel e mestre em Teologia e Direito. Doutorando em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor de Introdução ao Estudo do Direito e de Direito Constitucional na Universo (Recife) e na Faculdade Metropolitana (Jaboatão dos Guararapes – PE). Mentor da Estação da Zona Sul do Recife do Caminho da Graça.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010


Filosofia do Amor

Houve um tempo em que todas as ciências eram meros ramos da filosofia. Foi com o advento da mentalidade moderna, excessivamente analítica e carregada da pretensão de alcançar a verdade em ralação a todos os objetos, que, a partir do séc. XVIII (e principalmente no séc. XIX), se fez o desenlace de saberes como a sociologia, a psicologia, a antropologia e a economia da mater scientia.

Não obstante, há algo que nunca foi ciência, que os homens cultos e civilizados dos nossos dias ignoram tanto quanto desconhecem a si mesmos e às razões mais profundas pra viver e se dar. Refiro-me à filosofia do amor. Estou convencido que quanto mais nos desenvolvemos tecnologicamente, nos habilitamos a conhecer os fatos que se dão do outro lado do mundo em tempo-real e nos informamos sobre a opinião, virtudes e tragédias das celebridades, estamos nos tornando cegos e surdos em relação aos nossos sentimentos e os das pessoas que vivem ao nosso lado. É como se nos estivéssemos conectados com o “fora e longe” e, para isso, nos desligamos do “dentro e perto”. Já disseram que internet é uma ferramenta que aproxima os distantes e afasta os próximos. Este texto pretende apenas lançar as bases daquilo que chamo de “amizade com o saber amar” (filosofia do amor).

Em primeiro lugar, é preciso evocar a consciência de que nós não existimos pra trabalhar, para procriar, para conquistar terras e riquezas. A única razão para que eu e vocês estejamos aqui e agora, compondo a história da raça humana sobre a Terra, é que este mundo precisa muito de amor e Deus achou que nós poderíamos ajudar nisso. Não é por menos que vida sem amor não é vida e que só o amor tem o condão de transformar um ser humano de dentro pra fora. Foi o apóstolo Paulo quem disse que “o amor tudo suporta”. Não no sentido de que quem ama aguenta todas as coisas, mas que é o amor que a tudo sustenta e quem não tem amor está no vazio, precipita-se no abismo.

Em segundo lugar, importa que saibamos que amar não é uma garantia de que não vamos sofrer ou fazer sofrer. Pelo contrário, a palavra “paixão” tanto significa desejo quanto dor, é que também no que diz respeito às emoções, entre o “bem e o mal Deus criou um laço forte, um nó, e quem viverá um lado só?”. A filosofia do amor nos ensina a arte do perdão, ter olhos pra enxergar que o presente é mais importante e maior que o passado. Se quisermos viver das amargas lembranças do ontem, desligaremos a graça do hoje e inviabilizaremos as doçuras possíveis do amanhã. São escolhas a fazer, decisões a tomar. Perdoar não é esquecer, é abrir mão do direito de cobrar.

Presbiterianamente, em último lugar, mas não com a ilusão de esgotar a filosofia do amor, posto que este é um saber sempre em construção, quero lhes propor que importa que nos entreguemos inteiramente ao mar do amor, sem barcos nos portos a esperar, sem rotas de fuga, sem um “se não der certo...”. Quando nos damos em parte não podemos esperar viver plenamente satisfeitos. O amor não se pode aprender sem a radicalidade dos revolucionários. Foi Caymmi que lançou para o infinito a vexata quaestio: “por que de amor para entender é preciso amar, por que?”. Nas palavras de Fernando Sabino, no final vai dar certo, se não deu ainda, é porque não chegou ao final. Filosofia do amor a arte da contínua superação.

Com carinho,

Martorelli Dantas

Saudades de quem não partiu

Ontem encontrei com um doce amigo, Túlio Vinícius. Encontrei-o, mas ele estava ausente. Nem sempre estamos presentes onde presentes estamos. Presença é mais que consciência, é vontade de brincar, de sorrir, de dançar. Isto fizemos muitas vezes juntos. Senti saudade de nossas longas conversas sobre a fé e a graça, de suas risadas simples e de sua imensa fidelidade à minha sempre constante debilidade. Túlio é um desses homens raros, que não pode trair-se a si mesmo, que teima em ser escancaradamente ele mesmo, ainda que debaixo de pesados disfarces.

Quando orei por ele tive que me corrigir várias vezes em minhas palavras. A mente teimava em conjugar equivocadamente o verbo, como se falasse de alguém que foi, enquanto ele ainda estava ali. Será que estava? Nietzsche disse que não poderia crer num Deus que não soubesse dançar. Nem eu. Vejo em tudo o que olho os passos leves e precisos do bailar divino. Foi por isso que meu amigo atendeu pálido à minha saudação, diferentemente de tantas outras vezes em que ao som de minha voz o seu coração saltitou, pronto para a dança. Mas o Senhor chegou antes, e o tomou em seus braços e já agora rodopia com ele sobre as altas colinas.

Pouco importa se as pessoas estão ausentes, o que resta é saber se onde estão, encontram-se mais felizes do que se aqui estivessem. Penso em minha amiga Chica e em seu pequeno filho... como eles ainda queriam dançar... Há tanta música nesta vida e tanta dança em nossos pés, por que a festa tem que acabar tão cedo? Mas se eu bem o conheço... este não é um Túlio qualquer, é um Túlio “Vinícius”, deve ter ido, como fazia sempre o seu xará, para uma outra festa. Nesta existência a festa não cessa pra quem festeja, nem começa para quem a espera o melhor momento para celebrar.

Os antigos gregos falavam de “o barqueiro”, aquele que vem nos conduzir deste para o outro mundo. Noutra tradição, latina, costumou-se pensar na morte como “o ceifeiro”, aquele que vem nos desarraigar do chão desta vida. Em ambos os casos, as representações da morte não são “inimigas”, são condutoras, seres tranquilos e pacientes (pra que serviria a pressa?). Na mesma canção em que Francisco chamou o sol e a lua de irmãos, disse que a morte é nossa irmã. Suponho que esteja certo. Não tenho medo que Túlio morra. Tenho medo que ele viva sem vida. Não seria ele.

Findo este texto, escrito Deus sabe para quem, citando outro Vinícius vivo e morto:

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Recife, Dia de Finados de 2009

Carta Aberta ao Prof. Dr. Erinaldo Ferreira

Paz e Bem!

Não sou afeito a palavras de adulação ou atos bajulatórios, que estas e este não sejam encarados assim, porque não têm tal natureza. Em verdade, sou orgulhoso e narcisista demais para tais baixesas. Escrevo-lhe porque me exigem a consciência e a amizade, a primeira forjada antes de meu ingresso na Faculdade Metropolitana, a segunda nascida depois. Dou-me ao trabalho de reduzir a termos, as impressões de minha alma na faustosa tarde de ontem (dia 25 de fevereiro de 2010), quando de sua defesa de tese perante a banca examinadora do Doutorado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco.

Foi Chico Buarque quem disse: “quem não a conhece não pode mais ver pra crer, quem jamais esquece não pode reconhecer”. Durante a sua defesa reconheci o que conhecia e vi o que desconhecia. Reconheci, tanto na apresentação de seu trabalho quanto nas falas de cada um dos examinadores, a virtude de seu labor disciplinado e perseverante, que logrou produzir um escrito que, após ser aprovado pela unanimidade dos votos, teve a recomendação de publicação encaminhada pela banca à editora da Universidade. Reconheci o seu “quase-defeito” de ser simples e humilde em um ambiente onde a regra é a vaidade. Notei nas palavras dos doutores que comentavam sua tese, certo constrangimento ao perceberem que estava faltaldo algo em sua obra, a saber: como um indivíduo que faz tais descobertas, com um profundo esmero técnico e metodológico, não se arroga a nada, não se ufana de coisa alguma, a ninguém ataca e a ninguém desmerece? Quedaram-se assustados diante de uma realidade que para nós, membros do corpo desta Faculdade, é tão comesinha e constante como a sombra da mangueira que, senhora, enternece nosso campus.

Contudo, o real motivo que me animou a escrever esta missiva, não foi o que eu conhecia e, por isso, pude reconhecer. Mas aquilo que eu não conhecia e felizmente estava lá para ver e crer. Refiro-me à sua palavra de gratidão dirigida ao Prof. Geraldo Ferreira, antigo Diretor Acadêmico da Faculdade Metropolitana. Disse que agradecia a ele pelo apoio e estímulo durante todo o período de pesquisa e produção da tese. Mas, meu amigo, este agradecimento era completamente desnecessário. Aquele nobre e excelente colega não estava presente, ninguém ali era de sua relação pessoal, como poderia ele ouvir ou de algum modo chegar a ele suas sinceras palavras de gratidão? O que você fez não era preciso e só por isso é grandioso! Quando se faz o que exigem as circunstâncias ou os protocolos diplomáticos, desincumbe-se de um dever. No entanto, quando se faz o que não demandam de nós, nem de nós esperam os pequenos e mesquinhos que nos circundam, é que se revela a estatura de um ser. Amigo, talvez você não saiba, mas você é grande!

Sou grato a Deus pela graça de andarmos juntos nas pedregosas sendas da vida acadêmica e por gestarmos lado a lado o sonho de uma educação mais humanizada e eficaz.

Com carinho,

Prof. Martorelli Dantas

sexta-feira, janeiro 16, 2009

O que as crianças podem ensinar aos políticos e aos filósofos

Uma das características mais salientes da natureza humana é a sua capacidade de mudar e se adaptar a novas situações e realidades. É, sem dúvida, por esta razão que nós somos uma espécie animal tão bem sucedida no planeta, no que diz respeito a ocupação dos espaços. Contudo, tais mudanças nem sempre ocorrem para melhor. Às vezes, a adaptação acontece através da destruição ou inviabilização do ambiente que nos acolhe. É por esta razão que o roteirista do filme Matrix colocou na boca do agente Smith uma seríssima acusação contra a raça humana. Ele nos comparou a vírus, pois estes são seres que sobrevivem da destruição do habitat onde se instalam.

O homem já aprendeu a dominar tantas tecnologias e já se tornou capaz de construir veículos extraordinários de comunicação e de transporte, produzimos ferramentas capazes de ver o interior do corpo humano e intervir nele sem que sejam necessárias senão minúsculas incisões. Mas, como profetizou Carlos Drummond de Andrade, ainda não conseguiu fazer a “dangerosíssima viagem” até o chão de nosso coração, com o fito de pacificá-lo, de convidá-lo à harmonia e ao descanso, ao grato recebimento dos dons de Deus. Ainda não descobriu a imensurável alegria de ter pra dividir, de saber para ensinar, de partir para se aproximar.

Os nossos irmãos Darwin, Nietzsche, Marx e Freud tinham o direito de acreditar na evolução humana. Que no final do século XIX nós estávamos vivendo o alvorecer de nossa maturidade intelectual e espiritual, o que faria com que não precisássemos mais de conceitos como Deus e fé, pois a Razão seria suficiente para dirimir todas as questões, por fim a todas as contendas e mostrar um excelente caminho por onde deveríamos seguir. Eles tinham este direito, pois não conheceram, como nós conhecemos, a Guerra de 1914 ou a de 1939, como suas bombas atômicas; nunca ouviram falar de uma substância chamada Napalm que foi lançada indiscriminadamente sobre os habitantes do Vietnã do Norte nas décadas de 60 e 70 do século XX; nem imaginaram que aviões poderiam bombardear um hospital das Nações Unidas, como aconteceu no presente conflito entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza.

Esta visão catastrófica do que tem sido a humanidade, quase me leva a desesperar de tudo e me estimula a quedar-me em um ceticismo inócuo e cínico. Mas é quando estou a ponto de desistir de mim mesmo e de meus semelhantes que lembro das crianças. Ah, as crianças são minha salvação e lenitivo! Pensem numa criança judia e uma palestina colocadas em um campo verde com uma bola de futebol diante de si e perguntem: o que elas farão? Quase posso ouvir a resposta de todos: Elas jogarão, é claro! Mas a verdade é outra. Elas não jogarão, elas brincarão. Porque brincar é inato, jogar é aprendido. De que nos interessam as religiões, as políticas, as ideologias, o poder financeiro e tudo mais que anima a ambição dos homens de nossos dias? Brincar é premente, é urgente, é impostergável, inadiável. Brincar sem vontade de ganhar e sem medo de perder, só o desejo de correr e de sorrir, de fazer peripécias com a “gorduchinha”, sentindo o cheiro bom de mato molhado e o frescor que tem o vento quando um rio passa perto.
Se eu pudesse dar um conselho às Nações Unidas seria este: juntem seus filósofos, sociólogos, diplomatas e políticos e os obriguem a passar duas horas observando um jardim de infância, onde tenham sido colocadas crianças de todos os credos e raças juntas, vejam e aprendam o que é ser humano.

Com carinho,

Martorelli Dantas

sexta-feira, agosto 22, 2008

Caminhar rumo ao desconhecido

Uma das tarefas mais difíceis para uma pessoa adulta é aprender a arte de navegar sem mapas. De se conduzir na vida sem, necessariamente, ter passos a seguir; modelos bem-sucedidos a copiar; exemplos norteadores que mostrem o que buscar e o que, precisamente, evitar. Não é sem razão que boa parte da população mundial vive perdida. Refiro-me, literalmente, a terrível realidade de que há um sem-número de pessoas que não faz a menor idéia de por que está aqui, ou seja, qual o propósito de sua vida. Suas existências resumem-se a “fazer o que é preciso pra sobreviver”. Não carregam ideais, nem se sentem em meio a construção de um projeto maior do que a basicalidade de se alimentar e alimentar os seus. Nestes casos bem pouca diferença há entre um ser humano e um animal qualquer.
Tão angustiante quanto, é ter um ideal para vida, imaginar algo pelo que valha a pena lutar e viver, mas não saber como fazê-lo ou sentir-se sem meios e sem forças para a realização. Estes também estão perdidos. Sucumbiram na crença de sua impotência ou foram esmagados pelos insucessos que acumularam ao longo de suas trajetórias. Ocorre com estes um estranho fenômeno, eles sentem que já conhecem a estrada por onde caminham, tudo ao redor é familiar e lhes remetem aos incontáveis infortúnios que tiveram, às frustrações que alimentam em suas fatigadas almas. Se conhecem as “pedras do caminho”, tal ciência não lhes anima a jornada, antes, provoca neles uma contínua sensação de deja vu do fracasso.
O que fazer? Por onde ir? Que projeto há neste mundo licencioso e imediatista que valha o esforço? Se as respostas fossem fáceis o problema a que nos referimos não existiria. Precisamos andar com calma, não queremos alimentar ilusões. Em primeiro lugar, é necessário que se creia que fomos colocados neste mundo, no lugar e tempo em que nos encontramos, com um objetivo; que temos um papel a cumprir na História; que nos importa colorir as páginas da existência com nossos singulares traços. Não digo com isto que devemos nutrir o desejo de não sermos esquecidos (todos serão esquecidos, mais cedo ou mais tarde, e no ritmo que a nossa sociedade avança, bem mais cedo que tarde), mas que devemos imprimir na vida a nossa marca, construir o mundo que desejamos, ainda que nunca citem o nosso nome ou nos prestem qualquer homenagem.
Mudar o curso das coisas pra melhor, este é o nosso desafio e o único bem que podemos operar, sabendo que tudo que foi mudado, mudado ficará. Os fatos não retrocedem, mesmo o indivíduo que depois de curado da embriaguez a ela retorna, não retorna o mesmo, sua alma é outra, bem assim o são suas dores. Já imaginou o fato de que todas as pessoas com quem você encontra nas ruas, aquelas pessoas a quem você saúda de passagem, aquela velhinha a quem você delicadamente ajudou a atravessar a estrada... cada uma destas pessoas foram transformadas? Não digo que foram feitas significativamente melhores ou piores do que eram, mas seu dia, sua hora, seu minuto foi mudado por você e tudo mudou em decorrência disso.

Em nossa Comunidade existe este hábito de nos abraçarmos e de, especialmente, abraçarmos os visitantes. São muitos os testemunhos de pessoas que me procuram pra dizer que o que mais lhes marcou no culto não foi nem a pregação nem os louvores, mas o acolhimento. Elas sentem que foram tocadas com afeto, que indivíduos que não as conhecem, não esperam nada delas e que delas nada receberam, se aproximaram com um sorriso e com o peito escancarado para o aconchego. Num mundo em que se vai pra cama com alguém em quem nunca se fez um cafuné isso faz toda a diferença. Somos seres carentes, todos nós. Precisamos de companhia, de compreensão, de sentimento de pertencimento. Todas as vezes que oferecemos isso a alguém, estamos provendo as nossas próprias almas do bem que distribuímos.
Jesus chamou seus discípulos de “apóstolos”, que em grego quer dizer “enviados”. Depois a igreja transformou o movimento em título, em cargo de poder e autoridade. Mas, originalmente, ser apóstolo é tomar destino rumo ao desconhecido, ao novo, ao desafiador. Creio que todos deveríamos ser apóstolos. Não me refiro a ir na direção de terras inóspitas e distantes. Penso que deveríamos ir à desconhecida, ao desconhecido e lhe falar do amor do Pai. Minha vida tem um e somente um propósito, a saber, amar-servindo. Não obstante, quero fazê-lo não aos meus filhos e parentes, não aos meus amigos e colegas, somente; quero fazê-lo ao desconhecido, àquele de quem nunca saberei o nome, como é o caso, provavelmente, de você que lê este texto e que não tardará a esquecer o meu (nome difícil de lembrar). Isto não importa. O que interessa é que hoje eu pude lhe toca, lhe dizer que há um motivo pra viver e lutar: fazer alguém mais feliz; fazer com que a dor de uma pessoa se aproxime mais do suportável; que a solidão se desfaça; que o direito de sonhar seja recuperado. O Pe. Antonio Vieira, em um memorável sermão sobre a parábola do semeador, comentou que o diabo, em uma das tentações que fez a Jesus, lhe sugeriu trocar todos os reinos, suas riquezas e glórias pela alma do Mestre. O Salvador não quis... mas tanto por tão pouco, não valeria? Nossa alma é tudo que temos, quem vende ou negocia a sua consciência, abre mão de tudo que é, e de que adiantará ter se já não se é? Hoje há uma alma a resgatar e para isso basta um sincero e afetuoso gesto de amor.
Um carinho,
Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org

sexta-feira, julho 25, 2008

Livrando-se das Garras da Rejeição

Há basicamente dois tipos de acontecimentos na carreira humana: aqueles dos quais lembramos e alteram o curso de nossas vidas e aqueles dos quais nos esquecemos, mas que igualmente definem novos rumos para a nossa história. Logo, quer os fatos tenham sido lançados no profundo abismo do inconsciente, quer estejam continuamente presentes diante de nossos olhos, as nossas vidas são e serão sempre influenciados por eles. Isto porque não há encontro ou desencontro nesta existência que não nos mude, mesmo o mais rápido e aparentemente insignificante olhar, ou aquela leitura feita às pressas, deixam suas marcas naquilo que somos e continuamente estamos vindo a ser.

Faça uma experiência, pegue uma folha de papel em branco e peça para os seus amigos fazerem livremente desenhos, riscos ou escreverem palavras nela... assim é a sua alma. Cada pessoa que passa em sua vida deixa marcas. Estas podem ser mais ou menos visíveis, mais ou menos importantes, mais ou menos influentes no nosso peculiar modo de ser, mas estas marcas existem e estão lá. Obviamente que alguns destes registros podem ser um transtorno, podem nos influenciar negativamente, podem ser mesmo um peso para muitos de nós. Como não podemos simplesmente apagá-los, precisamos aprender a conviver com eles e corrigi-los, lançando, quem sabe, sobre eles novas compreensões que corrijam a rota que as malévolas impressões tentaram nos impor.

Sim, isto é possível e necessário. Na verdade, quer saibamos quer não, o tempo todo nossas memórias estão sendo, elas mesmas redefinidas por novos acontecimentos e/ou reflexões que fazemos. Nada em nós é estável e imutável, o oposto é que é a realidade. A única permanência é a contínua mudança de tudo em nós. Mas a questão é como fazer com que estas mudanças representem crescimento, amadurecimento e melhor qualidade de vida. É exatamente sobre a este esforço de auto-gestão emocional que eu quero dedicar este pequeno artigo.

O primeiro passo será sempre invocar para a consciência aquilo que nos incomoda. Desde Freud que falar sobre o assunto parece ser o melhor caminho para isso. Em lugar de fazermos o que geralmente nos parece mais cômodo, que é evitar aquelas temáticas que nos são desconfortáveis, é o caso de nos perguntarmos as causas de nos sentirmos como nos sentimos e de agirmos como efetivamente agimos. O princípio socrático do “conhece-te a ti mesmo” ainda é o mais seguro e produtivo percurso, muito embora, isto, por vezes, exija de nós mexermos em assuntos inquietantes e constrangedores. Esta trajetória pode exigir que nos encontremos com pessoas que estiveram presentes em nossas vidas na infância e até mesmo antes de nascermos para que possamos dominar completamente os sentimentos e acontecimentos que nos rodeavam neste período tão importante de nossa formação, pois sentimentos também são “acontecimentos relevantes”, na medida em que mesmo os sentimentos de outras pessoas entram em contato conosco de modo poderoso.

Um exemplo disso é a rejeição. Não ser ou não se sentir amado é algo duríssimo de lidar. É complicado saber que o que as pessoas nos fazem ou sentem por nós é o reflexo de suas próprias caminhadas e não, necessariamente, uma reposta ao que de fato somos. A realidade é que a rejeição ataca a nossa auto-imagem e pode nos machucar muito. Quando isto acontece com uma criança então as conseqüências, freqüentemente, são avassaladoras. Um bebê é um ser em formação em todos os sentidos, um feto o é também. Nesta fase já são completamente sensíveis ao amor, à raiva, ao medo e a toda sorte de sentimentos humanos. Imagine o que é ter a rejeição como o primeiro sentimento discernido pela alma! É terrível, mas, com a graça de Deus, nós podemos superar até mesmo isso.

Um caminho excelente para nos libertarmos das memórias que tentam nos aprisionar relacionadas à rejeição é lembrar que Deus nos ama e nunca, nem agora nem em nenhum outro momento de nossas vidas, Ele nos rejeitou. Ele que é santo e puro, diferente das demais pessoas com quem temos convivido, Ele que tem todos os motivos do mundo para nos virar as costas, jamais deixou de nos amar. Quando ainda estávamos no ventre de nossas mães, amados ou não por elas e pelas pessoas que a cercavam, nós éramos declarados eleitos pelo amor divino e desde então Ele deseja que nos aninhemos em seus braços ternos. Queria muito que todos nós mantivéssemos a mente bem consciente disso, que há um amor e uma aceitação que supera todas as outras. Nós somos e sempre seremos acolhidos em Deus. A única coisa que Ele deseja e espera de nós que aceitemos o seu amor por nós e que nos amemos também. Faça isso! Não rejeite nem a si mesmo nem a seus irmãos. Paz e Bem!

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org
Uma Tortura Chamada Solidão

Ando lendo Fernando Pessoa, não seus poemas e tratados, mas suas cartas íntimas. Escritas de Lisboa ao amigo Cortes-Rodrigues nos anos entre 1914 e 1916, quando a Europa se debatia nos horrores da primeira guerra (nego-me a chamá-la de “grande”, para mim toda guerra é pequena, posto que o é em seus motivos e propósitos). Confesso que me sinto intruso em um universo secreto, feito não para mim ou para os que as lêem hoje, mas para aquele em quem confiava o coração do poeta, a ponto de lhe falar de suas crises emocionais, seus desertos criativos, suas freqüentes depressões, suas ambições revolucionárias... a ponto de lhe pedir (com freqüência, diga-se) dinheiro emprestado. Até nisso as cartas me consolam. Notem que, diferentemente do que se diz alhures, a condição econômica nada tem a ver com o gênio dos homens ou com as empresas a que se dedicam. A história está cheia de “quebrados” brilhantes, com imorredouros legados. Mas não façamos disso uma virtude... há aqueles que nem sábios, nem doutos, nem empreendedores são apenas desafortunados, no sentido etimológico da palavra.

Pessoa é uma alma outonal. Lendo-o sinto o vento frio e cortante das tardes em que caem descansadas as folhas na capital lusitana. Na verdade, ele deveria se chamar Fernando Pessoas, já que seus heterônimos (outros nomes com que escrevia) são pessoas completas, com data de nascimento e morte, com quem dialoga o poeta. Ele não simplesmente os cria, ele cria neles, ele sofre e convive com eles. Imagino ser o resultado da busca de convivência, de laços comunais, na vida de quem a solidão machucava tanto. Esta é a razão pela qual, no final de cada carta, Fernando não apenas pedia que seu amigo lhe escrevesse logo de volta, mas, também, que o fizesse longamente. O ser humano não foi feito para a solidão, esta lhe é agressiva e enlouquecedora. Os generais sabem disso, e fizeram da “solitária” uma das mais severas e profundas torturas. Não precisam bater, humilhar ou ameaçar o detento. Basta deixá-lo sozinho, sem acesso a sons, imagens ou figuras; sem que se dê conta se é dia ou noite; sem que sinta sequer a presença das sombras externas, como no Mito da Caverna de Platão. Quando um homem é posto assim, em absoluto isolamento, a sua própria mente se converte em seu mais cruel algoz.

É num contexto como este, que a nossa natureza animal revela um dos mais curiosos expedientes de adaptação e sobrevivência. No início, o ser isolado começa a conversar consigo mesmo, fala de suas raivas e frustrações; relembra a sua caminhada e as razões que o levaram àquela punição; pensa no que fará assim que sair dali. Contudo, não demora muito até que este solilóquio seja interrompido por um “mas”. Após a adversativa vem o esforço de compreender o “outro lado do assunto”. O monólogo se transforma em debate interior, como nos filmes de desenho-animado em que um diabinho fala à altura de um dos ombros e um anjo se coloca na posição oposta. O diálogo interno, tantas vezes uma salutar relação dialética interior, vai se fixando e as “personas” vão se cristalizando. Não tarda para surgir o necessário mediador entre os dois, uma terceira voz. Outras muitas vão chegando à medida que o isolamento prossegue. Se a liberdade não chegar logo, ao ser solto e se perguntar: Qual é o teu nome? Corre-se o risco de ter como resposta: “legião, porque somos muitos”.

Os nossos irmãos, monges tibetanos (se Francisco chamava o sol e a lua de irmãos, como não chamaria de irmãos seres humanos como eu), desenvolveram, após milênios de estudo e meditação, uma forma de aplacar esta fome voraz da alma por companhia. Chamam de Nirvana, um estado de quietude da mente, conduzindo-a, como quem poda bonsai, à uma libertação da tirania dos pensamentos, manifesta em uma condição profunda de silêncio emocional. Acho isso tudo lindo, mas prefiro um bom e simples “papo de mesa de bar”, técnica desenvolvida pelos “monges” cariocas de neutralizar o processo de multifacção da mente. Compreenderam que a melhor maneira de evitar que a sua mente se divida e fale um monte de besteiras é permitir que outras mentes o façam, ao sabor de um filé com fritas, tão essencial para os últimos sábios, quanto o incenso é para os primeiros.

A verdade é ainda mais antiga do que todas as até aqui referidas. Foi dita pelo Criador pouco antes da história humana começar: “não é bom que o homem esteja só”. É por esta razão que somos uma Comunidade Cristã, porque nada que é realmente significativo e importante se faz sozinho. A arte da vida é viver com e para os outros, sem ter a necessidade de viver como os outros. Aprender a ser quem é em respeito e comunhão com todos que são como são, na certeza de que tanto nós quanto eles somos “um processo”. Somente Deus é o que é. Paz e Bem!

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org

quinta-feira, julho 10, 2008

Escute a flauta do pastor

Sempre me impressiona o fato de que todos nós, por mais simples que procuremos ser, estamos cercados de ameaças e de perigos. Não foi sem razão que Jesus nos advertiu que estava nos enviando como ovelhas para o meio de lobos (Mt. 10:16). Os riscos são tantos que, não raro, para se sentirem mais seguras, muitas ovelhas preferem se transformar em lobos também, mais ou menos nos termos do adágio popular: “em terra de sapos, de cócoras com eles”. Sem dúvida, a vontade do Mestre é que aceitemos a “dangerossíma” aventura de continuarmos sendo ovelhas em um mundo cada vez mais empestado de seres famintos, ferozes, sagazes e traiçoeiros... esta é a natureza dos lobos.

Vi muitas vezes ao longo de minha vida o poder que têm os interesses mesquinhos para impulsionar as pessoas. Como são capazes de iludir, mentir, machucar e seduzir... tudo para usar os outros para a satisfação de seus instintos adoecidos, que nunca cessam de cobiçar, de desejar com mais e mais intensidade, de alargar suas já incomensuráveis ambições. Num cenário assim é natural que nos desanimemos e, por vezes, até nos desesperemos. O tempo todo nos assedia o pensamento: será que vale a pena viver como somos neste mundo que é como é? Quando a resposta é “não, não vale” nem isso nos alivia a alma, posto que ser o que somos não é uma escolha, é a nossa natureza, como o é a dos lobos e raposas que nos espreitam.

É em momentos assim, quando tudo em mim é medo e tudo fora de mim é perigo, que me recordo de buscar ouvir a flauta do Pastor, como ensinou o Mestre Benjamim. Esta é uma estória do Rubem Alves em um de seus mais recentes livros, “Perguntaram-me se acredito em Deus”. Ele conta que em uma aldeia distante, numa brenha qualquer deste mundo, era costume que os meninos todas as noites fossem à tenda do Mestre Benjamim, para ouvir palavras de sabedoria que procediam dos lábios do homem mais sábio das redondezas. Numa noite em particular, em que chovia e relampeava e se podia escutar o uivo dos lobos misturado com o barulho dos ventos, as crianças estavam tomadas de medo. Uma delas com os resquícios de coragem que lhe restava, perguntou ao Mestre: é tão ruim sentir medo, não há modo de nos livrarmos do medo? Ao que recebeu como resposta: Há sim, basta ter a mente das ovelhas.

Mas como é a mente das ovelhas? Perguntou outra criança. Explicou Benjamim: as ovelhas são seres frágeis e indefesos, mas vivem cercadas de grandes e graves ameaças, são lobos, ursos e leões que por toda parte armam emboscadas e preparam ataques à procura de quem possam devorar. Como conseguem elas se sentir tranqüilas e seguras num mundo assim? Bem, as ovelhas têm um pastor que delas cuida e protege. Sua segurança não é o resultado da ausência dos perigos, mas da presença do pastor. À noite... quando se adensam as ameaças sob a sombra das trevas, o pastor toca a sua flauta. As ovelhas não vêem seu pastor, mas escutam o som de sua flauta e aquele som lhes penetra tão profundamente a alma e a mente que bane completamente todo medo. O som doce e melódico do instrumento do pastor lhes recorda que ele as conduz para as águas tranqüilas e para os pastos verdejantes; que a sua vara e o seu cajado lhes protegem; que nem dormita nem dorme o seu bom pastor. Depois de ter contado isso, outra criança pergunta ao Mestre: os sons da flauta assustam os lobos e afastam os perigos? Ao que Benjamim responde: Não meu filho, o problema das ovelhas não é o perigo dos lobos, mas a força do medo que as paralisa e diminui. O som da flauta afasta o medo não os lobos.

Quanto tempo faz que você não escuta o som da flauta? Parece-me que estamos focados demais em nos manter livres dos lobos, que são cada dia mais ferozes, poderosos, sutis e ardilosos, para que nos reste tempo para identificar os numerosíssimos sinais da presença de nosso Pastor em nossas vidas. Estamos empenhados sobremaneira com ações humanamente preventivas, que visam manter longe os lobos, armados de inteligência e medo. Medo, medo... muito medo. Sem saber que o medo nos matará antes dos lobos e amaciará a nossa carne para suas gulosas refeições. Nós não podemos vencer todas as feras e basta uma para nos liquidar, mas podemos deixar que Deus nos livre do medo. Por isso, meu amigo e irmão, quando lhe assaltarem o medo ou o desespero decorrentes dos infindos perigos circundantes escute o som da flauta. Se prestar bem atenção conseguirá até ouvir que canção ela toca... é uma antiga melodia que diz: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Paz e Bem.

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org

quarta-feira, junho 18, 2008

As Fogueiras de São Pedro

Alguns elementos quase que desapareceram completamente dos festivos juninos, outros rarearam de tal modo que com muita dificuldade os vemos em nossos dias. Por motivos de segurança, desapareceram os belíssimos balões que enchiam de leveza e sedução os céus de minha infância; as residências com pequenas bandeirolas decorando-as e as ruas transformadas em arraiais dos folguedos matutos são praticamente impossíveis de ver com a naturalidade com a que eram encontradas anos atrás; as fogueiras que na década de 70 estavam presentes na frente de cada residência, hoje são encontradas apenas nas fachadas dos mais tradicionais, até porque muitos de nós moramos em apartamentos que ou inviabilizam ou esvaziam de sentido tudo isso.

Para os saudosistas como eu, já não existe a Festa de São João, pois já não há quadrilhas que não sejam dedicadas exclusivamente para dançarinos profissionais, não se encontram mais espaços onde seres “desuingados” como o autor deste texto, possa se alegrar e sorrir com seus pares na levada dos balancês e alavantus. Lembro como muitas vezes eu chegava em casa, depois de ir de arraial em arraial durante toda madrugada, por volta das 5h da manhã e passava pelos restos das fogueiras que tinham ardido durante toda a noite. Elas haviam passado pelas várias fases, a beleza da incandescência inicial, com labaredas altas e violentas, depois aquele ardor contínuo e leve, até chegar aos estertores, às cinzas ainda reluzentes, o melhor momento para assar um milho verde. Mas há fogueiras que não se apagam nunca. Que foram acesas há dois mil anos e continuam como na primeira noite.

Nos Evangelhos existem duas e apenas duas fogueiras, ambas relacionadas à pessoa de São Pedro. A primeira foi acesa no pátio exterior da casa de Anás, sogro do sumo-sacerdote Caifás, para onde Jesus foi levado depois de ter sido preso no jardim do Getsêmani (Lc. 22:55). Ali, assentou-se Pedro, tentando passar desapercebido no meio dos curiosos que se aglomeravam naquele local para saber qual seria o destino do Rabino Galileu. Foi nesta geografia que se realizou a tríplice negativa do apóstolo, afirmando em meio a juras e impropérios que não conhecia o Encarcerado. Esta é a fogueira da queda, da vergonha, da negação, do desrespeito. Nela os ideais e os compromissos de amor foram queimados, lançados ao fogo pela covardia associada à fraqueza. O resultado desta combustão terrível é a amargura de alma, foi assim que o pescador deixou aquele local e assim deve ter permanecido muitos dias, mormente porque em seguida Jesus foi julgado, crucificado e morto... e Pedro não estava lá.

Graças a Deus há outra fogueira. Esta não foi acesa pela curiosidade, pela necessidade ou pelo medo, mas por amor. Refiro-me àquela que foi acesa por Jesus, já ressurreto na praia do Mar da Galiléia (Jo. 21:9), lugar onde três anos antes ele havia travado os primeiros contatos tanto com Pedro, quanto com André e João. Os discípulos tinham voltado à antiga prática da pescaria, eles costumavam fazer isso durante a madrugada com o objetivo de atrair os peixes com a claridade de suas lamparinas, mas naquela noite, mais uma vez, eles não tinham tido sucesso, estavam terminando o trabalho daquela noite sem terem colhido nenhum resultado. Quando se aproximaram da margem, ouviram uma voz de homem que lhes perguntava se tinham apanhado alguma coisa e eles responderam que não. Foi então que este homem lhes disse: “joguem do lado direito suas redes!”. Fizeram isso e pescaram muitíssimos peixes. Aquela frase e aquele resultado levaram a João a recordar, a ter uma sensação de deja vu, e se deu conta que este homem era Jesus.

Eles puxaram os barcos para a praia e encontraram Jesus assentado em um canto, com a fogueira acesa e com alguns peixes assando, bem como pão para uma refeição matinal que teriam ali. Esta é a fogueira da restauração, ela não é apenas acesa por Jesus, os pães e peixes também são dele, ele tudo provê. Foi ali bem perto que o Salvador perguntou a Pedro: “tu me amas?” E ouviu por três vezes a mesma resposta do pescador: “Eu te amo”, ao que lhe disse Jesus: “apascenta as minhas ovelhas”. Sobre cada negação Cristo sobrepôs uma oportunidade de reafirmação da fé e do compromisso. Para cada ato de renovação, Jesus ofereceu uma corroboração da mesma antiga vocação de amor e serviço ao próximo.

Amigo, irmã... pode ser que você esteja vivendo a tristeza e a amargura da queda, ao redor da fogueira do desencontro, mas fique sabendo que seja lá o que você tenha feito, dito ou deixado de fazer, há uma outra fogueira para onde você pode ir. É lá que Jesus está lhe esperando para comer com você um sanduíche de peixe e te oferecer perdão e verdadeira paz, por falar nisso... Paz e Bem!

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org

quinta-feira, junho 05, 2008

Eu acredito em dragões!

Esta vida é engraçada. Existem lendas em que quase todos crêem e verdades nas quais quase ninguém acredita. Este é o caso dos dragões, aqueles seres com os quais estamos tão familiarizados desde crianças, que fazem parte das estórias que lemos, ouvimos e vimos em filmes e desenhos animados. De tanto vê-los assim, “mitificados”, somos induzidos a pensar que eles não existem, mas eles são bem reais. Eu mesmo já vi muitos dragões, e daqueles de cujas bocas saem fogo que consome suas vítimas.

Há uma ilha na Indonésia chamada Komodo. Lá encontramos dezenas de dragões, eles são chamados de dragões de Komodo, podem chegar a ter 3,5 m de comprimento e pesar 125 Kg. São enormes. Parecem-se com lagartos gigantes, mas se deslocam com lentidão. Sua arma letal é a boca inflamada. Assim como os tubarões, os dragões de Komodo têm fileiras de dentes, onde ficam depositados os restos de suas refeições e ali elas apodrecem, produzindo diferentes e potentes tipos de bactérias. Ao atacar suas vítimas, geralmente de emboscada ou aproximando-se delas silenciosamente, basta-lhes dar uma abocanhada e em seguida soltá-las. As bactérias farão o resto do trabalho. Seguem as vítimas de longe, vendo-as serem paulatinamente consumidas pelos pequenos monstros que eles nelas introduzem mordendo-as.

Sim, mas eles soltam fogo pela boca? Claro! Você já teve uma infecção violenta? Se teve, sabe que a sensação é que se está pegando fogo. Um calor que partindo do ferimento vai se espalhando por todo corpo e isso vai consumindo o enfermo. Se ele não for socorrido logo pode vir a óbito em poucas horas. É o caso das refeições do lagarto em tela. São Tiago diz que é comum haver também dragões humanos, mas neste caso o veneno, as mortíferas bactérias, não estão depositadas em seus dentes, mas nos órgãos da fala. Ele diz: “a língua é fogo; é mundo de iniqüidade; a língua está situada entre os membros de nosso corpo, e contamina o corpo inteiro e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como é posta ela mesma em chamas pelo inferno” Tg. 3:6.

Estamos diante de uma realidade terrível, poucas pessoas têm sido vítimas em nossos dias dos dragões pesados e desajeitados de Komodo, mas em toda parte, na família, nos negócios, nas relações fraternas... abundam os que cambaleiam tocados por línguas ferinas que, nas palavras do escritor sacro, estão a serviço do diabo e do inferno. Mas como elas fazem isso? Há basicamente três formas de envenenamento: a mentira, a provocação e o lançamento de dúvidas. Muitas vezes estes venenos são administrados conjuntamente e acabam produzindo mais celeremente seus efeitos. Analisemos brevemente cada um deles.

A mentira sobre a qual estamos falando não é aquela que é animada pela covardia de quem não quer assumir a responsabilidade de suas escolhas e de seus erros. Referimo-nos à mentira que é a distorção de fatos com o objetivo de prejudicar uma pessoa. Mente quem inventa tais narrativas e quem as repassa sem que tenham sido verificadas, isto porque estes últimos são úteis ao propósito de destruir àqueles sobre quem se fala. Pergunte-se apenas uma coisa: se algo ruim está sendo dito sobre alguém, por que eu tenho que participar disso? Por que eu devo dar a minha contribuição para elamear a vida e a história de uma pessoa? Caso o que se diz seja verdade, ela não precisará de minha ajuda para se firmar. Caso não seja verdade, não é bom nos manchemos com o sangue de um inocente.

O segundo tipo de veneno a que nos dispomos a pensar é a provocação. Isto ocorre quando uma pessoa se permite instrumentalizar para lançar discórdia entre dois irmãos. Instiga um contra o outro, faz aquele papel de menino safado que fica dizendo: “carinha da mãe de um, carinha da mãe do outro”, para que crianças abobalhadas ferindo o objeto que representa a mãe do então adversário se envolvam numa briga, enquanto o que a provocou ri de ambos. Este é sem dúvida um agente do diabo. O livro de Provérbios diz que se há algo que Deus abomina é quem lança discórdia entre irmãos (Pv. 6:16-19) e Jesus nos ensinou que são bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus (Mt. 5:9). O que você é?

O último veneno a ser comentado é o que se presta a lançar dúvidas. Não se trata de mentira, porque a sagacidade do agente não o faz fazer afirmações. Nem se trata de provocação, porque necessariamente a dúvida não é lançada para criar contendas entre duas ou mais pessoas. Há pessoas que são realmente mestras em tirar a paz e a segurança dos outros, uma vez que o que nos aquieta a alma é a possibilidade de ancorá-la em alguma certeza. Em Otelo, o dramaturgo inglês Shakespeare, com refinamento incomparável cria o “inferno da dúvida”. Posto que a dúvida não nos tira apenas a determinação no agir, mas retira a tranqüilidade em decidir, seja lá qual for a decisão.

Quer um conselho? Afaste-se de dragões, sejam eles quais forem. Escute esta exortação: se você é dragão se converta!

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org

sábado, maio 31, 2008

Entre Nietzsche e Hodge

Quando me sentei para escrever este artigo, minha mente logo se reportou às palavras introdutórias de Nietzsche em A Gaia Ciência. Ele havia se recuperado de uma grave enfermidade e estava com o espírito em festa por poder volta ao labor da escrita. Disse que quando se vive este estado de “beirar a morte” e se tem a oportunidade de regressar às dinâmicas da existência, volta-se como quem “ama uma mulher em quem não se confia”. A mulher é a vida, amá-la é urgente, mas se faz isto sem que a entrega seja total, meio que com um pé atrás. Sabe-se que não se pode confiar no tênue fio que prende os mortais a este mundo. Durante os últimos quinze dias eu estive seriamente doente, como nunca antes tinha estado em minha vida. Já tive hepatite, cálculo na vesícula e viroses sem fim, mas nunca me senti tão debilitado, nem tão angustiado ante as demandas que continuamente assolavam minha alma, para as quais não podia dar resposta.

Nietzsche é a mente filosófica mais próxima a minha. Ele é muito mal-falado (nisto também nos identificamos), contudo, a grande maioria de seus críticos arremessam contra ele suas setas sem que o tenham lido ou se esforçado para compreendê-lo. O ponto de partida para isso é lembrar que estamos diante de um filho e neto de pastor. Poucos sabem o impacto que crescer dentro de um ambiente densamente religioso pode causar numa alma. Meus avós, tanto maternos quanto paternos, eram religiosos, presbiterianos e congregacionais, respectivamente. De ambos os lados estava eu decisivamente influenciado pela teologia calvinista, vinda especialmente da matriz norte-americana, nas levas de missionários chegados ao Brasil em meados do século XIX, sob influência direta de Charles Hodge, o grande doutor de Seminário de Princeton.

Hodge era um pensador sistemático, como de resto o são os protestantes. Seu pensamento é esquemático, seu Deus é esquartejável, cabe em compartimentos, em tomos teológicos analisáveis pela lógica cartesiana. Fui durante mais de 15 anos professor de teologia sistemática e de hermenêutica bíblica. Trabalhei nos grandes seminários do Recife. Parece que fui um bom discípulo daqueles que são capazes de reduzir a vontade, a mente e as ações divinas em coordenadas e abscissas. Sabia fazer as interpretações que tomam os textos bíblicos como instrumentos de “prova” das antigas verdades (qualquer coisa de 400 anos é antiga para quem tem 40, contudo conheço heresias mais velhas). O dogma da harmonia das Escrituras era o martelo e o formão para deixar plano o sinuoso e a lamparina para clarear o obscuro. Mas fiquei velho para tais contorcionismos, quero ver o que se pode e aprender a andar na penumbra onde a natureza não lançou luz.

Nietzsche muito me ajudou nisso tudo. Aproximei-me dele através das frases bombásticas, como a maioria das pessoas. Afirmações como a de que Deus morreu me impressionaram, queria saber do que ele estava falando, queria ler o autor de contundentes assertivas, forjadas em um coração tumultuado, crescido num lar luterano. Entendi o que ele queria dizer. O deus que morreu é aquele que já não cabe em uma alma livre. Liberta pela revelação de que o verdadeiro Deus é Pai presente e amoroso, de que não é alguém a quem temer, mas para se confiar e contar. O filósofo alemão nos chama para viver o aqui e agora, mas acima dos tabus e preconceitos nascidos das taras moralistas da hipocrisia reinante. O deus que morreu é o de Hodge.

Faz alguns dias que eu estava com Karina, lendo, em minha convalescência, Crime e Castigo de Dostoievski. Ela, que cuidava de mim em uma daquelas intermináveis noites, me perguntou sobre o que queria Nietzsche dizer com a doutrina do “eterno retorno”. Expliquei-lhe que ele construiu um critério para validar as escolhas que fazemos em nosso dia-a-dia. Imagine que a vida é uma constante repetição, que as decisões que tomamos agora retornarão infinitamente. Ou seja, esta nossa conversa neste quarto voltará sempre a acontecer, tendo isto em mente se pergunte: é isso mesmo que eu quero fazer? Olhei em seus olhos e disse que seria para mim um imenso prazer viver para sempre o vivido ali. “Oh! Minha amada que olhos os teus!”.

Hoje, presente supremo de Deus que me fez voltar à vida, quero apenas caminhar e sorrir com meus companheiros. Buscar a alegria e fugir da dor, ajudando a quem puder a fazer o mesmo movimento existencial. Sofrer é inevitável, mas aprendamos com ele. E em tudo nos esforcemos para não fazer sofrer.

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org

quarta-feira, abril 16, 2008

Como uma vida espiritualizada pode ajudar a sua carreira profissional

Todos os seres humanos são providos de espiritualidade, bem como de emocionalidade e corporalidade. Negar isso em nossos dias é como deixar de reconhecer que há sol, lua e estrelas no firmamento ou que há os mares, a superfície e a atmosfera na Terra. Como nos exemplos dados, o espírito, a mente e o corpo, mesmo estando intimamente ligados, são diferentes e separados entre si. O corpo é a parte mais evidente do nosso ser e é através dele que temos contato com todas as realidades que nos cercam. É o nosso portal de acesso à vida e, por isso mesmo, digno de cuidados e de honras. A mente, sede de nossas emoções (chamada de psiquê ou alma pelos gregos), é a dimensão do nosso ser que transforma as informações recebidas pelos sentidos em emoções, e estas, por sua vez, nos impulsionam a agir ou recuar diante das situações concretas da existência. Sim, mas o que é o espírito?
O espírito é o elemento de equilíbrio entre estas duas dimensões do ser anteriormente explicitadas. É o elo de comunicação superior entre os seres vivos, um construtor de pontes entre tudo quanto espiritualmente existe, fazendo com que deles nos aproximemos ou afastemos. O espírito não pode ser reduzido em termos racionais ou lógicos, porque gravita numa esfera superior a estas habilidades. Por esta razão que nos afeiçoamos de determinadas pessoas ou as rejeitamos sem sequer conhecê-las; que pais e filhos estão continuamente ligados mesmo separados por quilômetros de distância; que há pessoas que alegram o ambiente quando chegam, enquanto outras trazem consigo um peso inexplicável, como se lançassem uma sombra sobre tudo o que tocam ou falam.
Na década de 90 um psicólogo da Universidade de Harvard, Daniel Goleman, publicou um livro que trouxe uma nova compreensão das relações humanas, com grande impacto sobre a gestão de carreiras e seleção de pessoal. Estou me referindo à obra intitulada Inteligência Emocional. Nele Goleman afirma que mais importante que o coeficiente de inteligência (o nosso conhecido QI), que mede a capacidade de processar informações e resolver problemas lógicos, existe um índice que trata da capacidade de enfrentar problemas como pressão, estresse, angústias e medos, este seria o coeficiente de inteligência emocional. A conclusão a que muitos chegaram desde então é que empresas não precisam tanto de gênios do xadrez ou brilhantes matemáticos, mas, especialmente nas posições de comércio, recursos humanos e marketing, de pessoas equilibradas, capazes de trabalhar em equipe e que contribuam para a solução de crises quando, eventualmente, estas se instalarem.
Seguindo este princípio, creio que seria conveniente falarmos também de Inteligência Espiritual, ou seja, a capacidade de estabelecer um nível de comunicação consigo e com as pessoas que estão ao nosso redor que transcenda a razão e que ajude o próprio universo emocional a se manter centrado. Recentemente os psicólogos vêm chamando a nossa atenção para o que eles chamam de capacidade de resiliência, expressão que vem da física e define a capacidade dos materiais de resistirem a impactos e pressões sem se deixarem deformar, partir ou quebrar. Esta é uma capacidade mais que emocional, creio eu, posto que é uma característica de gestão do próprio mundo emocional, mas que escapa a este. Em minha opinião a resiliência nos seres humanos é uma força do espírito, assim como o é o empreendedorismo e a determinação. Estes são alimentados pela fé que é a capacidade de ver o que não há e de saber, ainda que não haja motivos lógicos que fundamentem esta ciência, que a vitória virá.
Um dos mais recentes livros do guru americano em administração de empresas e carreiras Stephen Covey, chama-se O Oitavo Hábito, é uma espécie de continuação do best-seller Sete Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes. Nele Covey acrescenta aos hábitos emocionais e operacionais que havia elencado em sua obra anterior a capacidade de ouvir a sua voz interior. Este seria, segundo ele, o oitavo hábito. Mas que voz é esta que fala em nosso interior? É a voz do espírito. Não apenas ser capaz de ouvir a voz que fala em nós, mas também a que fala dentro das pessoas que caminham conosco (discernir espíritos, para usar uma expressão bíblica) é um diferencial profissional significativo.
A pergunta é como se pode desenvolver tal capacidade? Em primeiro lugar, é necessário que nos saibamos seres espirituais, que tudo em nós não se resume a corpo e emoções. Depois, é preciso que vejamos a habilidade de nos encontrarmos espiritualmente como algo a ser desenvolvido, tal qual a de falar outros idiomas ou de dominar novas tecnologias. Drummond, o poeta mineiro, foi quem disse que depois do homem realizar muitas viagens intergalácticas e cibernéticas restará a ele a “dangerosíssima* viagem de si a si mesmo, por o pé no chão do seu coração... estará ele preparado?”. Este é, como o são os oceanos, um universo próximo, mas ainda desconhecido para a maioria de nós.

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org

* “dangerosíssima” é uma expressão inventada pelo poeta (um neologismo), uma brincadeira com a palavra inglesa danger, que significa perigoso. Assim dangerosíssima significaria perigosíssima ou dificílima viagem.

terça-feira, abril 01, 2008

Exorcizando fantasmas ou aprendendo a viver com eles?

Uma das melhores cenas do clássico El Cid, estrelado por Sophia Loren e Charlton Heston na década de 60, é aquela que se dá na mesa do jantar da noite de núpcias. A bela Gimene (personagem de Loren) diz ao seu esposo, Rodrigo (Heston) que precisa lhe contar um segredo, algo que ele deveria saber antes de consumarem o casamento. Argumenta ela que não deve haver segredos entre marido e mulher. Já imaginando o que seria e querendo evitar que a sua amada noiva passasse por um grave constrangimento confessando o que fizera, Rodrigo diz que mesmo entre marido e mulher, às vezes, importa que haja segredos. Insistindo na confissão, Gimene afirma que aquilo que não é dito, que é mantido escondido entre um casal, se transforma num fantasma a assombrar a relação. É aí que o noivo, compreensivo e amoroso, diz: “essa casa é grande, temos lugar para uns poucos fantasmas”.

A questão que me proponho a tratar neste artigo é a seguinte: será que devemos mesmo dizer tudo o que fizemos ao nosso cônjuge ou amigos? Em outras palavras, será que é melhor contar todos os detalhes de nosso passado ou esconder alguns fatos que podem enodoar a nossa imagem e prejudicar a relação? Este não é um assunto simples e eu não quero abordá-lo de modo irresponsável. Por esta razão não tome o texto como uma ordem ou um mandamento. Siga sempre o que a sua consciência disser e faça isso com amor e sabedoria. Mas creio que algumas considerações podem ser úteis àqueles que, ainda jovens, querem construir relacionamentos sadios, francos e equilibrados.

Minha primeira observação é a de que ser sincero não é dizer tudo o que pensa ou sente. Muitas vezes isso é irresponsabilidade. Sincera (do latim sinecerum = sem máscaras de cera) é aquela pessoa que só fala o que pensa e sente, não aquela que fala tudo o que pensa e sente. A diferença é brutal e significativa. Muitos dos pensamentos e sentimentos que nos ocorrem precisam ser peneirados, pesados, avaliados, amadurecidos e isso, via de regra, leva tempo. É fundamental que nos perguntemos se aquilo que estamos animados a dizer vai ajudar a relação, será edificante e construtivo, caso contrário, qual a utilidade de falar? Cada um de nós tem coisas boas e ruins dentro de si, precisamos escolher com cuidado o que vamos retirar lá de dentro para oferecer às pessoas que estão ao nosso redor.

Jesus ensinou que o que contamina o homem não é o que ele come ou bebe, mas o que ele diz, porque sai de seu coração, e se transforma em comunicação, em laços que nos unem a outras pessoas e que findam por alimentar a nossa própria personalidade, delineando a nossa imagem e influência. De algum modo, ainda parcialmente misterioso para mim, o Mestre está nos dizendo que nos transformamos não naquilo que pensamos e sentimos, mas naquilo que falamos. E, obviamente, ele não estava preocupado somente com o que as pessoas vão pensar de nós, mas naquilo que efetivamente somos para nós mesmos. Nas suas palavras: “é aquilo que sai da boca do homem que o contamina, porque procede do coração” e em outra passagem ensina: “a boca fala do que está cheio o coração”. Há entre o coração e a boca um processo de mútua alimentação, de modo que a boca deixa vazar o que vem do coração e aquilo que me escapa pela boca enche ainda mais o meu coração.

Fatos e acontecimentos de nossas vidas são como roupas que compramos e usamos. Algumas queremos que permaneçam conosco, estas devem ser exibidas e discutidas. Outras nos envergonham e nos fazem pensar: “como eu tive coragem de usar uma coisa dessas?”. Nestes casos o melhor é jogá-las fora e não permitir que ninguém as veja. Fazendo assim, corre-se o risco de que apareça alguém com uma foto do carnaval de 1972, quando você saiu de baiana nas Virgens de Olinda, mas esse é um risco calculado que, por vezes, é melhor correr. Deixar que a pessoa nos conheça tem a ver com o presente mais do que com o passado. Está relacionado a permitir que o outro veja o nosso coração, aquilo que amamos e tememos, nossos sonhos e projetos de vida. Não é necessário que as pessoas sejam capazes de reconstituir os fatos que deram origem a cada uma das cicatrizes que eu trago no corpo. Nem eu mesmo sou capaz de fazer isso com perfeição, quando mais as pessoas que andam perto de mim.

Eu não vou lhes contar o que Gimene fez de tão grave, nem tirarei o prazer de vocês saberem por si mesmos se ela chegou ou não a confessar o seu ato a Rodrigo, mas lendo o que leram até aqui já deu para notar que, como ele, eu não vejo mal nenhum em uns poucos fantasmas. Mas leve uma coisa em consideração, se a roupa está no baú que você pretende levar para nova casa é melhor você falar dela, porque se ela vai ter mesmo que saber é preferível que seja por você. Isso lhe dará a oportunidade de colocar os fatos em seu real contexto e conferirá a você o benefício emocional de estar tomando a iniciativa de contar. Pese o custo emocional disso. Avalie se este fato encoberto vai ficar constantemente ameaçando vir a tona, nestes casos é melhor se livrar do malassombro e vivenciar a dor de expor o que lhe constrange. Quem escuta deve lembrar que tem também muitas “roupas envergonhantes” e que não é sábio “o sujo falar do mal lavado”.

Por fim, resta dizer que sem perdão, compreensão e graça toda relação está fadada a ser de desgaste e opressão. Todos nós precisamos aprender a nos perdoar e compreender, bem como a perdoar e compreender o nosso semelhante. Pai “perdoa as nossas ofensas, assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido”... foi assim que Jesus nos ensinou a orar, agora só falta aprendermos a viver.

Com carinho,

Martorelli Dantas
martorelli@martorelli.org