quinta-feira, janeiro 30, 2014

Sete razões pelas quais acredito que a Reforma Mendicante foi maior que a Reforma Protestante

1. A Reforma Protestante foi uma expressão da necessidade geo-política de um tempo em que os príncipes europeus não queriam nem suportavam mais a intervenção de Roma nas questões da administração interna de seus povos. Apoiar a Reforma foi uma forma de emancipação política da relação com o papado. Já a Mendicante é fruto da consciência espiritual de que os exageros autoafirmativos da burguesia emergente eram uma afronta à essência do Evangelho.

2. A Reforma Protestante é um movimento que nasce nos ambientes acadêmicos, frequentados pela nobreza e pelo clero, como Winttemberg e Genebra, e que constrói uma tênue aliança de sustentação com a burguesia. Os pobres nada sabem da Reforma nos dias de Lutero, além de suas inspiradas canções. Já a Reforma Mendicante nasce na burguesia e parte para os pobres. É um movimento evangélico de reinclusão destes nos limites institucionais do reino de Deus.

3. Tendo a Reforma Protestante nascido envolta no ambiente iluminista do final do século XV e início do XVI, ela se estruturou e se apresentou, desde o primeiro momento, de forma excessivamente humanista e dogmática. Para confirmar isto basta ler as Institutas de Calvino ou o conjunto de Confissões que defluíram em todo século XVII. Já a Reforma Medicante, de Francisco e seus doces amigos, expressou-se na revalorização do simples, do cósmico e do mínimo, que chama a lua e a formiga de irmãs.

4. Quem entrasse em uma igreja luterana ou anglicana no século XVI saberia que a ruptura promovida pelo protestantismo foi político-hierárquico e dogmático, mas isto não tocava radicalmente a liturgia e a prédica, a não ser pelas intrigas em forma de denúncia que insistentemente eram feitas dos púlpitos. Já a Reforma Mendicante mudou tudo, fez do leigo instrumento nas mãos de Deus para a promoção da consolação e dos leprosos a primeira assembleia de ouvintes.

5. O protestantismo nasce, ainda que não nas intenções expressas de Lutero, como um movimento de ruptura, de cisão. Este não é meramente um dado histórico, passou a fazer parte do DNA do protestantismo, o qual continuou existindo a partir de sua infinita fragmentação. O franciscanismo promoveu uma ruptura em todos os sentidos maior que a protestante, mas de dentro e dentro da igreja, guardando uma desconcertante submissão às ordens desde Cristo estabelecidas. Os franciscanos foram, e em alguma medida continuam a ser, uma denúncia de que nossos excessos e opulência ofendem a Deus, na medida que se sustenta na negação do compartilhar e da misericórdia.

6. A Reforma Mendicante nasce imediatamente como movimento evangelístico, uma vez que surge sob o signo da misericórdia e quer erradicar não a pobreza, posto que "os pobres sempre os tereis convosco", mas os sofrimento solitário. Os fratellos se sentiam chamados para todos os lugares em que o sofrimento se expressasse, quer fossem os campos de batalhas, para cuidar dos feridos, quer fosse para os guetos das grandes cidades, para alentar os esquecidos. Já a Reforma Protestante fez guerras, que, diga-se de passagem, ainda não acabaram. Sob Lutero e Calvino muitos foram mortos pelo que pensavam e professavam. O único a quem Francisco fez mal em toda a sua vida foi ao seu "irmão corpo".

7. Em sétimo e último lugar, mas o mais importante de todos aqui apresentados, é que na Reforma Protestante o que se pretendia era combater os erros e os excessos da Igreja Católica, eis a razão das 95 teses de Lutero. Já a Reforma Mendicante pretendia, e ainda pretende, encarnar Jesus, viver como Cristo viveu, experimentar com radicalidade absoluta o seu ensino, crendo que este não nos foi dado como poesia ou para a terna memória, mas como um padrão e um modelo de vida, para além de toda contextualização diminutiva e cômoda.

É por tudo isso, que a esta altura da vida, me sinto mais franciscano do que protestante, quer uma coisa quer outra, fora dos limites institucionais da igreja.

domingo, junho 23, 2013

Reflexões sobre as manifestações populares


Este é um movimento cuja iniciativa foi de jovens e de estudantes, que, paulatinamente, foi alcançando e incluindo outros segmentos da sociedade. É a expressão da indignação de um povo espoliado e tratado como meio para atingir objetivos mesquinhos. São políticos e empresários autocentrados, desprovidos de qualquer sentimento benéfico em favor dos mais, daqueles que sofrem na miséria, e de outros tantos que são mantidos numa condição de oprimidos, para sustentar este desequilíbrio necessário para a preservação da perversidade capitalista.

Sim, precisamos discernir a questão essencial que subjaz à revolta popular. Por que a primeira alternativa dos governantes para manter o preço das passagens, é cortar investimentos ou aumentar impostos? Por que não se cogita reduzir a margem de lucro dos empresários que exploram o mercado do transporte público? Por que o investimento dos empresários é sempre o mínimo para fazer os veículos rodares? Por que os gestores públicos estabelecem metas para a melhoria dos serviços prestados, as quais não são cumpridas, nem resulta este fato em sanções?

A resposta é simples, há um pacto, um compromisso entre os mandatários e aqueles que viabilizaram a sua eleição, financiando suas campanhas. E como há sempre uma nova eleição por vir, e a necessidade de mais dinheiro para atingir postos mais vantajosos, o vício se perpetua. Não há quem aponte o financiamento público das campanhas como a senda para a quebra deste sistema. Creio que não. Entendo que enquanto ser político for financeiramente vantajoso, este financiamento será só mais um modo de desviar recursos do interesse público para bancar o mesmo modelo de descalabros que está aí.

Quero levantar a bandeira de uma revolução socialista. Revolução sim, mas democraticamente promovida. Os cientistas políticos de plantão devem estar achando uma loucura juntar estas duas expressões em uma mesma frase: revolução, democraticamente promovida. Na verdade, o que não for assim é golpe de estado e só produzirá mais insegurança jurídica. O que precisamos é canalizar toda esta energia que tem levado milhares e milhares de pessoas às praças, para construir um conjunto de pautas sociais a serem levadas a efeito pelos eleitos em 2014, nos moldes pregados por Plínio Sampaio, durante a campanha política de 2010.

Bolsa Hipocrisia


O que grande parcela da população ainda não se deu conta, é que programas assistencialistas como o Bolsa Família e que tais, nos deixaram em uma encurralada política. Nenhum candidato à presidência da república que anunciar o fim do programa será eleito e o que for eleito vai prometer não só a manutenção do mesmo como a expansão de políticas públicas que seriam para a redistribuição de renda.

Ocorre, que a lógica do modelo capitalista de organização econômica é que o trabalhador deve ser remunerado pelo seu trabalho, não por sua pobreza. A lógica socialista de transformação é o de evitar a mais-valia e aproximar o trabalhador dos meios de produção, para que através do seu trabalho ele produza e possa alcançar os meios necessários para a sua desvinculação do sistema de opressão.

Em outras palavras, o que temos hoje instalado no Brasil é um capitalismo que usa maquiagens socialistas, logo, extremamente hipócrita, uma vez que não promove a emancipação (porque não dizer libertação) da classe operária e oprimida. Pior, faz tudo isso oferecendo falsas esperanças de acensão social para as classes inferiores, porque lhes permite comprar a TV Led e a torradeira, mas não lhes dá saúde, educação e segurança.

Acho os programas de Bolsa* uma falácia utilizada por quem não quer ou não sabe promover as mudanças que o país precisa. O que precisamos é de reforma agrária de verdade, o que precisamos é de uma revolução inclusiva no ensino fundamental (não apenas colocando mais crianças na escola, mas lhes oferecendo ensino integral e de qualidade), o que precisamos é que os nossos jovens sonhem em ser professores e não funcionários públicos de altos salários.

É tanta coisa que precisamos, mas o início do caminho é o fim do cinismo e da hipocrisia, é a implantação pacífica e profunda de um socialismo animado pela misericórdia e pela compreensão que somos todos parte de um mesmo organismo, vinculados a este planeta e a tudo que nele vive e aguarda redenção.
IMPORTAR MÉDICOS... DESCE UMA CUBA-LIBRE

Tem umas coisas que são difíceis de entender e explicar. A presidente disse que nós vamos "importar" médicos, porque os que há no Brasil são insuficientes para atender à necessidade da população. Estes médicos virão, principalmente, de Cuba, sem falar a nossa língua e sem entender as peculiaridades da vida no Brasil

É verdade, não temos médicos suficientes. Mas temos milhões de jovens desejosos de fazer o curso de medicina, boa parte deles em absolutas condições de fazê-lo, mas a concorrência é desumana e frustrante. Em nosso país não é a vocação que define a profissão que vai se seguir, mas as condições financeiras dos candidatos ou o fato de serem superdotados.

Se novas faculdades de medicina tivessem sido abertas no início do governo PT, já estaríamos formando a segunda "fornada" de profissionais. Se houvesse um programa de estímulo a ida deles para as cidades do interior, em grande medida, o atual estado de coisas estaria resolvido. A decisão de nossa presidente é a assunção da falta de planejamento e visão de longo prazo das forças que representa.

O governo, e a esquerda em geral, sempre que podem elogiam a educação em Cuba. Esta esquerda assumiu o poder com a eleição de FHC em 1994, de lá pra cá se passaram quase 20 anos e nós, de eleição em eleição, escolhemos candidatos sempre mais à esquerda. Contudo, nenhum deles manifestou o mínimo interesse em promover aqui a revolução que Fidel e Che fizeram lá.

Qual a conclusão a que chegamos? Precisamos de um governo de direita? De modo nenhum. Nada poderia ser mais maléfico e anacrônico para a alma brasileira. O que me parece evidente é que estes governos, ditos de esquerda, eram de fato e de verdade, forças vendidas aos "dominadores deste mundo tenebroso", às mesmas forças que legitimaram e sustentaram o governo militar.

Ou enxergamos isso agora, ou corremos o risco de adotar medidas que serão um desestímulo ao esforço daqueles jovens, que passam três ou quatro anos tentando vestibulares por todo o país, movidos pelo sonho de serem médicos. A solução da "importação" é mais rápida e mais prática do que abrir novas universidades, mas é só outro exemplo da política desastrada de maquiar a incompetência administrativa com "bolsas de ilusão".

quarta-feira, setembro 19, 2012

DOMINGO FUI À IGREJA A PÉ; E VALEU A PENA

“Alegrei-me quando me disseram, vamos à casa do Senhor” Sl 122.1

“Vai oiando coisa a grané, coisas qui, pra mode vê, o cristão tem que andá a pé”

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Fazia anos que não ia à igreja a pé, mas nesse fim de semana, estava em Recife, na casa dos meus pais e resolvi ir à igreja do meu amigo Martorelli Dantas. Ela fica na mesma calçada do prédio onde moram meus pais, há apenas uns 100m. Fui com Rosélia, de mãos dadas, caminhando, conversando bobagem...

Chegamos, sentamos, fomos cumprimentados e ficamos aguardando o início do culto. Quando meu amigo chegou, nos cumprimentou alegre e também a cada um que estava no recinto. Tudo bem familiar.

O culto começou com uma música, em seguida o pastor, sentado num banco no altar, deu as boas vindas a todos, enfatizando que o culto ao Senhor precisa ser verdadeiro. Oramos, cantamos e ele me convidou para ler um Salmo, o 138. Achei tudo aquilo uma pintura, uma obra de arte. A mistura de liturgia, símbolos, ícones e informalidade, que eu ainda não tinha visto na prática, deram ao momento certa mágica, no bom sentido da palavra. Umas 30 pessoas, no máximo, música suave, com teclado e voz; as transparências bem postas na parede, as pessoas vestidas de forma simples e a serenidade contagiava o ambiente limpo, climatizado e esteticamente projetado. A organização criou um ambiente aconchegante como um ninho.

O pastor pregou sentado numa banco de madeira, com o assento revestido de cordas. De forma espontânea, mas profunda e didática, falou sobre em Êxodo 32 sobre UM CAMINHO DE SAÍDA. Reflexão contextualizada, fazendo pontes entre o pensamento de Moisés, Jesus, Castro Alves e Geraldo Vandré. Em seguida cantamos, houve contribuição (Eu e Rosélia não contribuímos porque não levamos carteira nem bolsa, fomos a pé, lembra?). Motivos de oração foram lidos e houve um momento muito significativo de súplicas. Depois celebramos a Eucaristia (Ceia) juntos, ouvimos o testemunho da irmã Ana Paula, que estava aniversariando naquele dia. Ela falou como o Senhor se revelou num momento difícil de sua vida. No final, Martorelli me convidou à frente para falar sobre o ministério com famílias junto à Sepal, informando a possibilidade de voltarmos em outro momento para falar aos casais. Chamei Rosélia e falamos um pouco sobre o que temos feito nos últimos 4 anos. Mas não resisti em dizer que aquele culto me trouxe muita paz. Nele houve silêncio, espera e abraços pessoais, singulares, diferente das três coisas que o Richard Foster diz que o inimigo usa nos nossos dias para distrair a atenção das pessoas: barulho pressa e multidões. De repente fomos presenteados com a canção “Eu sei que vou te amar”, de Tom Jobim, solfejada num saxofone pelo esposo de Ana Paula que tocou pra ela como belo presente de aniversário. Finalizando Martorelli pediu que continuássemos no altar e que a igreja erguesse as mãos e cantasse nos abençoando. Fiquei emocionado.

Depois dos parabéns e o bolo pelo aniversário da Ana Paula, conhecemos as instalações da igreja e voltamos pra casa a pé. No caminho duas irmãs da igreja passaram de carro e nos ofereceram carona. Foi aí que a ficha caiu: estávamos voltando da igreja andando, olhando no caminho “coisa à grané”, como diz Luiz Gonzaga.

Há quantos anos não fazíamos isso? Nesse momento lembramos a igreja de nossa infância e juventude em Fortaleza, quando íamos e voltávamos a pé, pois a igreja era perto. Meu pai tinha carro, mas íamos a pé... era tão bom...

Quando será que irei outra vez para a igreja a pé?

Espero em breve!!!

Escrito pelo Pr. Marcos Quaresma, missionário da Sepal no Nordeste.

quinta-feira, junho 14, 2012

A Ética da Esperança

Por Martorelli Dantas

Muitos supõem que a esperança é uma realidade exclusivamente interior, que ela é algo que o indivíduo carrega consigo e que serve para animá-lo a aguardar com positividade algo que almeja que aconteça. Contudo, eu creio que há um aspecto extremamente importante da esperança que tem sido negligenciado, tanto no ensino cristão hodierno, quanto em nossas conversas informais. Refiro-me à ética da esperança. Por ética eu tenho um modelo ou padrão de conduta, algo que é ditado por convicções profundas e valores que norteiam nossas relações e comportamentos concretos. Devemos afastar os conceitos de ética e moral. Enquanto a moral encontra os seus parâmetros nos dogmas comportamentais, ditados pela tradição ou pelas leis religiosas e sociais, a ética é fruto de uma racionalização do modo de viver e visa a construção de um “bem-estar intersubjetivo”.

Mas o que seria esta ética da esperança? Penso que se acreditamos sinceramente que algo vai acontecer, devemos ter um comportamento e uma linguagem condizentes com esta esperança. Caso contrário acontece conosco como naquela estória, em que uma mulher leu na Bíblia a frase de Jesus: “se tiveres fé como uma semente de mostarda, direis a ente monte passa daqui para ali e ele passará”. Pensou ela consigo mesma: vou ver se isso dá certo... ordeno a você monte, que fica na frente da minha casa e que me impede de seguir pelo caminho mais curto até a feira, saia daí e vá 500m para a esquerda! Disse isso e foi dormir. No dia seguinte quando abriu a janela, lá estava o monte no mesmo lugar, ao que concluiu: eu sabia que isso num ia dar certo. O que ela sempre soube que seria, nisso é que ela cria! E foi isso que ditou a conduta e o coração dessa senhorinha.

Quem tem esperança deve levar uma vida de quem tem esperança. Se não for assim, o que essa pessoa tem são palavras de esperança, que, como no caso das palavras de amor, são realidades essencialmente diferentes. O Mestre nos ensinou com insistência para que não prestemos muita atenção em palavras: “nem todo que dize Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus”; “aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica...”; “o primeiro filho disse: eu vou, mas não foi. O segundo disse: eu não vou, mas depois arrependido foi”. Em todas estas passagens a ênfase de Jesus é para a insignificâncias das palavras, quando elas estão desconectadas de atitudes consistentes com a declaração. Discurso sem vida é confusão, não é confissão, muitos menos profissão.

Acho lindo meu irmão Paulo nos contar que Abraão “esperou contra a esperança” (Rom. 4:18). Entendo que o que ele está dizendo é que quando as circunstâncias já não podiam sustentar a esperança; quando não havia nada de palpável em que a esperança se escorasse; nada para dar à esperança alento e sobrevida; no momento em que a promessa caiu no evidente absurdo, ele continuou crendo. Seu comportamento foi o de quem persevera em esperar nas palavras daquele é fiel. A cada raiar do sol ele se levantava imaginando que poderia ser aquele o dia em que seu corpo se enternuraria pelo de Sara, em que o sopro do Espírito o entumeceria como dantes. A cada por do sol, ao deitar-se no colo de sua esposa, sempre bela e amada, supunha que seria naquela noite em que a mão do Todo Poderoso desenlaçaria seu ventre para dar curso a uma semente de vida.

Continuar procurando Sara é um exemplo de ética da esperança, se ao fazê-lo Abraão tinha em seu íntimo a certeza de a estar engravidando. Ética da esperança é não devolver mal por mal como expressão da confiança de que só o Senhor é o único legítimo juiz e só ele tem o direito de “retribuir” em seu favor, quando e se achar que deve. Enquanto isso você segue a senda da misericórdia, da compreensão e do perdão. Não creio que haja fundamento para falar de fé sem que ela esteja associada à ética da esperança. Talvez seja isso que Tiago quis referir quando disse que “a fé sem obras é morta”. O meu convite para você é que repense seu modo de falar e de agir, perguntando a si mesmo se este comportamento é adequado em relação às convicções que aninha em sua alma. Se não for assim, há um só caminho, converta-se!

domingo, maio 27, 2012

Nota Homilética - Mensagem do Dia de Pentecostes (27 de maio de 2012)

Texto Base: Atos 2:1-4

Introdução. A Festa de Pentecostes está intimamente ligada à da Páscoa, ela acontece exatamente 50 dias depois desta, são sete semanas depois, uma espécie de “semana de semanas”. Era chamada pelos judeus de hag xabu’ot ou “a semana”, ainda yom hakiburim, o “dia das primícias”. Com a influência dos gregos, depois da dominação helênica, sob Alexandre, passou a ser chamada de “pentecostes”, uma referência aos cinquenta dias. Nesta festa se comemorava a entrega das Tábuas da Aliança, após a saída do povo de Israel do Egito e era a ocasião da consagração das colheitas, pela entrega dos primeiros frutos.

Na tradição cristã, a conexão entre o Pentecostes e a Páscoa também está presente. Jesus havia ordenado aos discípulos que permanecessem em Jerusalém até que recebessem o poder que vem do céu (Lc. 24:49). O cumprimento desta ordem/promessa aconteceu no Dia de Pentecostes.

O que eu gostaria hoje é em lugar de relembrar essa história, detectar nela alguns princípios que, quem sabe, podem nos ajudar a buscar e receber esta tão necessária abundância do Espírito, que faz toda diferença na vida e na carreira da Igreja.

Elucidação. Estarem no cenáculo no Dia de Pentecostes é tanto fruto da obediência, quanto da esperança, que vem da confiança na voz do Mestre. Mas por que esperar? Por que “perder tempo”, se eles já O haviam visto ressurreto? Se eles já tinham o grupo e a mensagem, já tinham sido treinados por três anos, qual o sentido desta estranha contenção? A resposta é simples, eles tinham o conteúdo, a mídia e os destinatários, mas lhes faltava a unção.

Está aqui um equívoco que não é pequeno para a igreja de nossos dias. Supomos que porque temos os elementos materiais para a proclamação do Evangelho, já não nos falta mais nada. A verdade é que falta tudo! A melhor ortodoxia, o mais belo templo, o programa no horário mais nobre da televisão ou o site mais bem montado da Web é nada! A pregação carece de unção como o gado de água, como o homem de sonhos. Sem unção a mensagem pode até dar certo, só não dá vida!

Este é o drama de pregadores de ofício, como eu, que têm que pregar, assim como um funcionário que precisa abrir a firma às 8h na segunda-feira para atendimento ao público. Eu não canso de dizer a Paulão: a igreja não é uma padaria, mas nós fazemos dela coisa tal qual. Pergunto aos que não são “pastores profissionais”: sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar, sabe lá? (Djavan). Que Deus me dê a graça do recolhimento e do silêncio, quando for tempo de esperar a visita do Espírito. Que o meu povo, rebanho do Senhor, saiba respeitar este “momento de cenáculo”!

Tema: Pentecostes é encontro da atitude na Terra e o derramar do Céu.

1. Primeiro movimento: unidos na terra.

A primeira coisa que nos é dita a respeito dos discípulos naquele dia é que eles estavam reunidos. Eu gosto de pensar na palavra grega que define como eles estavam no momento, homós, que é a raiz de várias expressões na língua portuguesa, tais como homogêneo e homodinâmico, e quer dizer comum ou igual, e aqui pode significar apenas “juntos”. Contudo, juntos nunca é apenas. Estar juntos para uma comunidade cristã é essencial. Não como as pessoas se reúnem em um elevador, mas juntos como uma família ou uma fraternidade.

Desde os primórdios a igreja do Senhor sofre com a divisão, com a separação, com as intrigas internas. Jesus orou, pediu, ensinou a eles que ficassem unidos, que se amassem... de nada adiantou. Há tanta divisão em nosso meio. Aqui mesmo em L’Abri somos casa dividida. A mesma meninice de “eu sou de Pedro, eu sou de Paulo e eu sou de Apolo” se vê entre nós. Isto só não entristece mais a mim do que a Cristo. E o que nos divide? São valores, doutrinas, ideias? Não, o que nos divide é a vaidade e o orgulho!

Estou pronto a afirmar que é assim sempre em toda parte. Que nada separa irmãos, senão a vaidade e o orgulho! A história da igreja cristã é testemunha disso. Ah! Eu ia esquecendo de algo primordial, a cobiça. Mas cobiçar o que? Aquilo que a minha vaidade diz que eu tenho que ter e o orgulho diz que eu mereço, é isso que eu cobiço.

Mas hoje o Senhor nos lembra que não há Pentecostes se não estamos juntos. Não há unção se não nos humilhamos e “preferimos em honra uns aos outros”.

2. Segundo movimento: os céus se movem.

Em seguida, o texto nos diz que “veio do céu um som”. Como costuma dizer o Pr. Jeremias Pereira: quando o povo de Deus ora, os céus se movem, o inferno treme e coisa nova acontece na terra”. Eles estavam lá, unidos e orando, e o céu se moveu em seu favor. Se o Senhor, em sua soberana vontade, estabelecesse apenas este único critério para derramar do seu Espírito, nós estaríamos perdidos. Onde Ele encontraria um povo unido em oração? Deus tem misericórdia de nós!!!

Mas Ele é cheio de graça mesmo, Aleluia! Jesus não parou de orar por isso e continua cumprindo a sua promessa em nossos dias. Do céu ainda vêm sons... deseje-mo-los. Em minha vida e ministério nunca faltaram provisão dos céus, o que faltou e continua faltando é disposição para buscar. Esta prontidão para a consciência da dependência. Como diz Caio: dar razão a Deus e obedecer a sua Palavra. Quero o Senhor em minha vida, quero a sua palavra em minha boca, a sua graça em meu coração.

Tiago não mentiu quando disse que “quem quiser peça a Deus que a ninguém nega” (1:5). Os sons do céu ainda tocam, o fogo que faz arder ainda queima, mas quem os quer? Quem por eles espera? O espírito de Simão, o mágico (Atos 8) tomou conta de nós. O poder pelo seus efeitos, quando o poder é ele mesmo efeito da comunhão sincera.

3. Terceiro movimento: a experiência de cada um e a manifestação em todos.

É lindo ver que as “línguas de fogo” pousaram sobre cada um, mas que todos ficaram cheios do Espírito Santo. Há aqui as duas dimensões que não se podem perder, a singularidade da experiência com Deus e a comunal manifestação de seu amor ao mundo. Cada um e todos não são inconjugáveis, não são excludentes.

Por isso escolhemos sermos uma comunidade sem denominação, para sermos de todas. Por isso somos católicos e protestantes, porque Cristo não está dividido, Ele não pertence a ninguém e é de todos. A graça é concedida a cada um para a edificação de todos, como nos ensinou nosso irmão Paulo em I Cor. 12. Vamos deixar cada um receber a sua porção da obra de Deus em sua vida, lembrando que “o fim proveitoso” só o é se for para todos.

Não sou daqueles que pensa que só é possível seguir a Cristo fazendo parte de uma comunidade cristã. Se fosse assim os apóstolos não poderiam ser chamados de cristão, porque muitos deles passaram a maior parte de suas vidas viajando ou presos, mas ninguém pode ser cristão “para si” ou “em si”. Isto é uma contradição, um absurdo à luz do Evangelho. Se recebemos a graça do Senhor foi para comunicá-la e vivê-la na relacionalidade. O isolamento e a solitude são experiências necessárias, mas não são (ou não devem ser) modos de vida.

Somos o povo do “cada um” e do “todos”!

Conclusão. Há um enorme perigo de fazermos do Dia de Pentecostes, uma espécie de Dia das Secretárias ou de qualquer outra pessoa de quem tendemos a nos lembrar só naquele dia. Pena que seja assim, porque, meus irmãos, ainda hoje e sempre, é o “Espírito quem concede”. É dele, e só dele, que vem o que importa.

Uma vez eu chamei Thiago, meu filho mais velho, para um passeio na mata. Andamos durante horas e depois de algum tempo eu lhe perguntei: meu filho, você sabe voltar? Ele, que tinha uns sete anos, me disse que não sabia. Com tom doutoral, eu lhe disse que durante a nossa caminhada eu havia observado cuidadosamente marcas no caminho, para que nos servisse de roteiro no retorno. E agora bastaria seguir estas marcas que chegaríamos em nosso acampamento.

Resultado... depois de umas duas horas andando em círculos, eu mesmo comecei a me preocupar. Pedi para Thiago me esperar em um local e corri para ver se identificava algo que nos pudesse ajudar a retornar. Quando eu estava a uns 800 metros dele ele gritou para que eu voltasse. Entendi que ele estava com medo e não queria que eu me afastasse. Voltei, mas, para minha surpresa, ele não estava com medo. Ele tinha uma ideia e me disse: pai, lá no nosso acampamento não tem energia elétrica? Eu disse que sim. Então ele completou: Se nós seguirmos os cabos de alta tensão que vemos no céu não chegaremos lá?

Talvez seja tudo uma questão agora de nos voltarmos para o céu, e lembrarmos que a nossa missão não pode ser realizada sem este seu derramar sobre nós.

quinta-feira, maio 24, 2012

O amor é sofredor!

Quando Paulo, no capítulo 13 da primeira carta aos coríntios, elencou as características e virtudes do amor, por alguma razão, colocou em primeiro lugar esta terrível verdade: o amor é sofredor (algumas versões traduzem como "paciente"). Por que será que o amor é sofredor?


Porque nós não escolhemos a quem amar, somos assaltados pelo amor. Quando nos damos conta, já estamos amando e aí é tarde demais. Amamos quem merece e quem não merece ser amado. Amamos quem também nos ama e quem nunca nos amará. Amamos quem reconhece e valoriza o nosso amor e quem nem se dá conta que ele existe. Sendo assim, o amor não poderia ser outra coisa, senão, sofredor.


O amor é sofredor porque não escolhemos quando amar. Ele nos surpreende em momentos inesperados, quando juramos por tudo que é mais sagrado que vamos ficar quietos e serenos, é justo neste inopinado momento que ele se manifesta mais devastador. Chega dizendo que não sabe, não pode nem quer esperar. Chega se impondo, se anunciando imperioso como um general romano em cortejo vitorioso pela Via Ápia, abram passagem.


É sofredor porque confina a quem ama, não lhe deixa escapatória ou rota de fuga. É um sequestro, um rapto talvez. Algo que nos condena perpetuamente, que nos lança no terrível calabouço de ver a sua felicidade vinculada e dependente da felicidade do ser amado. Faz dele um órgão externo, um fígado que ganhou pernas e saiu por aí, onde quer que vá vamos nós, clamando para que a Misericórdia o livre de sofrer. Será sempre assim, depois de amar é o fim.Se o amor é sofredor e nada podemos fazer em contrário, precisamos aprender a amar, para, quem sabe, sofrer menos.


Em última análise, é esta a razão de todo engenho e arte humana, sofrer menos. O que posso dizer aos meus leitores, que possa lhes ajudar e singrar as sendas de uma vida de "menos dor"?Sem dúvida, o primeiro passo é não esperar do ser amado que lhe ame de volta, que seja como você deseja, que se comporte conforme os padrões mais nobres e elevados definidos por tua consciência. Faça isso não, só te vai fazer sofrer mais. As pessoas precisam ser elas mesmas, caso contrário não conseguem ter paz. O ser amado deve se sentir livre, deve se sentir autorizado a ser ele mesmo. Deve poder se despir diante de você, sem temer o olhar avaliador, que mensura, que aprova ou desaprova. Quem ama não deve estabelecer condições para o amor.


Em seguida, por pura estratégia de não sofrer, perdoe o ser amado. Você merece perdoar! Perdoar não é um gesto de grandes almas ou de pessoas especiais, é só uma manifestação de simplicidade e sabedoria existencial. De que adianta cobrar de alguém uma dívida que ele não pode pagar? O que foi dito não pode ser desdito, o que foi feito não pode ser desfeito. O que foi se foi e precisa "se ir" de nós também. Perdoar não é esquecer, é coisa bem mais objetiva e simples (sem que por isso seja fácil), perdoar é abrir mão do direito legítimo de cobrar uma dívida que o outro não pode pagar.


Em último lugar e, talvez, o mais importante... AME sem medo de sofrer. Algumas pessoas não se entregam ao amor por medo de que este amor lhes machuque. Tudo bem, estas pessoas não sofrem por causa disso? Sofrem, mas sem amar inteiramente. Passam a vida "dançando de macaco" (coisa comum antigamente, quando as moças punham a mão no peito do rapaz para ir regulando a distância do mesmo, um cuidado para evitar afoitesas). De fato isso é seguro, mas isso é dançar?


Na vida teremos dores e aflições, amar faz sofrer... tudo isso é verdade, mas alguém conhece coisa mais gostosa do que amar? Algo mais pleno e realizador? Como disse o Poetinha, "para isso fomos feitos..." para amar e ser amados. Como fez o carpinteiro viver de amor e morrer de amar.


Extrato da mensagem pregada no aniversario de Eliane Marques, em L'Abri, no dia 21/05/12.

domingo, janeiro 08, 2012

Nota Homilética n. 4

Traindo a Jesus

Com base em João 13:2

Introdução. Há muito equívoco em relação à operação do diabo em nosso meio. Existem aqueles que não creem que ele existe, outros acham que existe, mas que não atinge os cristãos e há, ainda, aqueles que supõem se ele uma força despersonalizada, o mal em si.

A decisão sobre esta questão, passa por outra, anterior a esta, e que é fundamental para os nossos posicionamentos a respeito de todos os assuntos da fé, a saber, qual o alicerce sobre o qual erigiremos nossas crenças. Temos várias possibilidades: a teologia (há muitas no mercado, para todos os gostos), num gesto de submissão a uma determinada tradição na qual somos formados e formatados; nossas experiências, domo como elas são assimiladas por nós e define a silhueta da maneira como vemos as coisas; a conveniência, nossa ou do meio em que vivemos, pode ser o crivo para estabelecer o que crer e professar.

Faz muito tempo que eu decidi que não assumiria a posição de juiz das Escrituras, mas deixaria que o Evangelho, no modo como nos foi apresentado pelos autores canônicos, lido e interpretado sem sutilezas, mas com a simplicidade de uma criança ou de um camponês, sim, este Evangelho, me ensinaria sobre o que eu devo crer e sobre a forma como eu devo viver.

Elucidação. Deste modo e com esta perspectiva, o que posso dizer sobre o diabo?

1. que ele existe;

2. que é dotado de intencionalidade;

3. que é tentador;

4. que cega o entendimento dos homens para não creiam nem confiem em Deus;

5. que perverte o entendimento das Escrituras, para que os homens não entendam a sua mensagem e sejam guiados pelo Espírito;

6. que tenta a todos e a qualquer um;

7. que põe coisas nos corações dos homens.

Desenvolvimento. A pergunta que lhe proponho e sobre a qual lhe convido a meditar nesta noite é sobre “o que o diabo está colocando em seu coração?”

Talvez você não sabe o que seja, mas estou convencido de que ele não está inativo em relação à sua vida. Ele pode ser até impotente ou ineficaz em alguns casos, mas nunca inativo.

Permita que eu me arrisque, mas baseado naquilo que aconteceu com Judas, é provável que nós possamos compreender que o que o diabo deseja para todos nós é que traiamos a Jesus.

Sim, trair a Jesus é o que o diabo tem lhe tentado a fazer. Mas como?

1. Não confiando em seu poder, amor e fidelidade;

2. Escolhendo e preferindo algo ou alguém em seu lugar;

3. Vivendo de conformidade com a sua vontade, como se ele não existisse.

Conclusão. O fim de Judas foi o que foi, não porque o diabo colocou no seu coração a ideia ou desejo de trair a Jesus, mas porque ele fez o que fez. Mas, sobretudo, porque depois de ter feito o que fez não se arrependeu, não procurou se reconciliar com Cristo.

Quando Judas, percebendo a besteira que tinha feito, procurou o Sinédrio para devolver as trinta moedas de prata pelas quais tinha vendido a Jesus, ele o traiu novamente; quando Judas se enforcou em uma árvore por não suportar viver com o que fizera, ele o traiu novamente.

E você até quando vai trair Jesus?!?